REBIMBA O MALHO

REBIMBA O MALHO

domingo, 4 de novembro de 2012

UMA CARTA

UMA CARTA


CARTA ESCRITA NO ANO DE 1995 A UM AMIGO DE INFÂNCIA AUSENTE DO PAÍS.
(É A CARTA MAIS LONGA QUE ESCREVI E POSSIVELMENTE A QUE ESTE AMIGO RECEBEU).


           Meu querido A...                                                                                                         


           Depois das férias que as gozei no mês de Agosto, resolvi dar-te conta como ocorreu a visita que fiz à Panasqueira terra onde arribei com dois meses de vida. Foi mais do que uma visita, foi antes, uma romagem de saudade.
Espero que tenhas a paciência necessária para levares avante esta empreitada pois promete ser longa. Pelo menos encontres nela, um pouco do prazer do muito que tive ao escreve-la. Contudo, se achares que é pieguice ou despropositada, perdoa mas, a razão, talvez seja devida ao facto, de muito ter amado aquelas paragens bem como as gentes que nelas habitaram. É o passado que está arreigado e, que de certo modo, ajuda a viver o presente.
O dia 11 de Agosto deste ano do Senhor de 1995 amanhecera lindo e quente como, aliás, é habitual nesta época de estio. Foi neste dia magnífico que da minha terra ─Louriçal do Campo─ saíram dois automóveis com rumo à Panasqueira levando comigo amigos que convidei a visitarem esta terra para mim muito querida.
A primeira paragem foi em Silvares, recentemente promovida à categoria de Vila. A hora do almoço chegara e, para o efeito, indagámos por um restaurante. Foi-nos indicado alguns e optámos pelo que nos pareceu mais aprazível pois tinha um terraço com grande latada. Escolha errada, confecção deficiente e, até a qualidade bastante duvidosa.
A digestão foi-se fazendo à medida que íamos somando quilómetros. Um pouco antes do Rio (Cabeço do Pião), tive que fazer uma curta pausa, para ver uma vez mais aquela paisagem soberba exposta aos olhares de todos.
Paisagem de uma beleza sem par, os montes e vales sucedem-se e, entre estes, lá bem no fundo, serpenteia molemente a ribeira do Zêzere; é um encanto, fonte inspiradora para o mais exigente pintor. Enchemos os olhos e alentámos a alma.
Retomada a marcha, ia pelo caminho observando e tudo me era familiar. Desde tenra idade que me habituei ver aquelas paisagens e, se quando por ali residia, não dava a merecida importância, agora que estou fisicamente ausente, a importância é redobrada e, por tudo sinto um carinho especial até enternecedor.
São aqueles aterros que jazem sem que por eles jamais rolem pedras quais lágrimas rolando pela face enrugada de um ancião quiçá com saudades da pedra mãe de onde foram separadas à força bruta dos explosivos.
São os altos pilares do caminho aéreo que não são mais do que gigantes apontando os céus parecendo gritar a sua revolta pela inutilidade. Jazem ao sabor do tempo inexorável que aos poucos os vai corroendo.
Entrei na Barroca Grande. À direita olhei o edifício dos correios. Estava encerrado. Recordei o meu amigo Zé Neves, antes um seminarista, pessoa simples que com o tempo e talvez pelo encargo que tinha ─ chefe dos correios─, tomou conta dele a vaidade. O ser humano tem destas coisas.
Por associação de recordações pois elas cruzam-se, entrelaçam-se e até paralelamente caminham, lembrei-me do pai deste amigo o ti Francisco Carvalhas, senhor de uma hortita que ficava paredes-meias com o recreio da escola das raparigas. Como era muito cioso das suas culturas, ficávamos muito apreensivos quando entravamos furtivamente pela necessidade de resgatarmos a bola que um pontapé ou num ressalto a projectava para o meio da hortaliça. Ai daquele que fosse apanhado a devassar a propriedade e, a coisa complicava-se, se desse conta que por um passo mal calculado era pisada alguma novidade por ele semeada. O homem, ficava furibundo. Com certeza que também assististe em algum momento a este drama. Porém, nós que estávamos no pináculo da juventude e irreverência embora um pouco contida pela brida da altura, pouco ou muito pouco nos ralávamos.
Continuemos: passei pelo edifício dos escritórios centrais e, tal como os correios, também tinha as portas fechadas. Desolação!
O casario está na mesma; todo perfilado ocupando aquela encosta e bem enquadrado em todo aquele espaço envolvente.
Lá está aquela curva por onde os trabalhadores atalhavam encurtando caminho através da serra com destino à Panasqueira e outros iam mais além, para São Jorge da Beira (Cebola). Era um fado de todos os dias. Tempos difíceis aqueles principalmente quando o Inverno deitava de fora suas garras bem afiadas porque ali, naquelas terras do fim do mundo, a invernia era inclemente, muito rigoroso e longo. Era penoso para os que eram obrigados a meterem-se ao caminho chegando aos seus locais de trabalho sabe Deus em que situação. Os salários eram parcos e a perda de um ou dois dias, já faziam falta para o governo da casa, principalmente para aqueles com família constituída. Havia de facto muitas famílias a viverem muito mal, com sérias dificuldades até para o elementar. Oxalá que todos eles, os que ainda estiverem entre nós, tenham hoje fartura e que jamais nenhum mineiro ou operário passem por aquelas privações que todo o ser humano em circunstância alguma deveria ter conhecido.

Depois da Lomba da Cevada, vem logo a seguir os Cambões. Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido. Vi casas mais ou menos recentes tanto da parte de cima como da parte de baixo da estrada. Fiquei contente, o lugar progredira. Contudo, algumas já não são do meu tempo, pouco me dizem ou nada e, por isso, prefira o antigo casario, aquele que me conhecera e eu a ele. A preferência primeira vai para a capelinha lá no fundo do povoado, singela e, primorosamente caiada de branco. Este carinho advém possivelmente, porque foi o primeiro sítio que conheci dos Cambões. Sabes por quê? Era perto dela que no mês de Outubro de todos anos ali fazíamos o magusto sob a vigilância dos nossos professores e do padre Leal. Era no terreiro envolvente da capelinha que dávamos asas à nossa alegria e às nossas brincadeiras de meninos. Assim, o eu associar a capelinha às castanhas o que na verdade não posso dizer que seja o religiosamente correcto. Posteriormente liguei-me por outro motivo. Era ao seu redor que anualmente se fazia uma festa em Sua honra. Todavia, penso que a Sua graça é Senhora da Guia. Será?
Era uma festa simpática como todas as festas das aldeias. E nós, o nosso grupo, por lá deambulávamos não só para vermos as cachopas e diga-se em abono da verdade, também para sermos vistos. Abandonávamos o terreiro, rente à hora do jantar, levando cada um de nós, os bolsos cheio de ilusões desfeitas. Retínhamos as imagens dos corpos das moçoilas que nos alimentavam os sonhos durante dias.
Eis-nos chegados ao Rato que já lá não está ─ parece má sina ─ . Vi escombros e vi tristeza. Foi uma casa com tradição que desapareceu. Ficou mais pobre aquele sítio. Esta casa também está ligada à minha meninice, pois lá emborquei muitos pirolitos à beira do meu pai. Como tudo já vai longínquo.
Chego à Madurrada. Lá em baixo, numa casa meio escondida por árvores e vegetação, vivia outrora um senhor suserano. Senhor inacessível que mandava em todas aquelas terras. Até as casas dos seus vassalos lhe pertenciam. Poderia assim começar uma historieta triste para ser contada aos nossos filhos ou netos num serão. Infelizmente não se trata de ficção; era a crua realidade e ninguém, penso eu, alguma vez pensou quão frágil era a sua segurança e dos seus. A qualquer momento e, até sem motivo que justificasse, tão-somente por mero capricho de um senhor importante podia um vassalo ficar não só sem trabalho como também sem tecto para se poder abrigar. Não deve haver tristeza maior do que um ente não ter abrigo para si e para a sua família. Não quero dizer que isso tenha acontecido. Contudo, se aconteceu ignoro. Mas o facto é que como as coisas se processavam na altura, em que não existia uma entidade que zelasse pelos que ali labutavam, podiam perfeitamente e abusivamente atirar com qualquer um para o desespero. Felizmente que hoje os tempos são outros, embora se continue a verificar muitas injustiças, muitos atropelos com a agravante de o homem ter refinado na sua crueza.
Postas que estão estas considerações, retomo as impressões que colhi nesta romagem: Em frente da entrada principal que dá acesso à entrada principal da casa senhorial e, mesmo na curva, ainda de pé parecendo-me até em bom estado, está a casa da governanta do tal senhor que acudia por John Smith. Se a memória não me atraiçoa ela chamava-se Benvinda. Mesmo tratando-se de uma serviçal, lembro-me que as pessoas lhe atribuíam uma certa deferência. O mesmo acontecia com o motorista o Sr. Tavares que fora proprietário dos carros de aluguer que estavam ao serviço da empresa. O Sr. Tavares era considerado pessoa importante e ele cheio de prosápia. Era um arrogante ao ponto de o temerem. Como eram as coisas naquele tempo. Agora meu amigo, ali naquele local, a saudade apertou. A lembrança dos nossos passeios que quase diariamente fazíamos depois do jantar ou mesmo à noitinha. Olhei aqueles muros que circundam o feudo e lá está aquele onde o nosso grupo se sentava em hilariantes conversas. Diga-se a verdade e, sem vaidade, não havia grupo como o nosso, mesmo cada um com a sua personalidade.
Cheguei enfim ao largo do clube. Quis mostrar aos meus convidados a boca da mina da galeria 5 mas um enorme taipal escondia-a totalmente e assim, estavam também as outras. Grande decepão. Esconderam-nas como quando alguém tem vergonha de uma falta menos digna e procura esconderijo. Será que um portão de ferro e um forte cadeado já não é o suficiente para travar os que pretendam prevaricar? Deve ser o sinal dos tempos.
Do meio do largo estendi o olhar até à casa que durante muitos anos me abrigou. Não está como a deixei. A beleza que tinha já a não tem mais. Amputaram-na naquilo que mais graça lhe dava. O varandim da entrada no qual tantas vezes me debrucei ou resguardei de um aguaceiro breve. Que catita ele era. E que dizer das águas-furtadas? Arrancaram tudo, taparam e alisaram o telhado com umas quantas telhas. Era ali o meu quarto e a janela estava virada para o mundo. Era através dela que todas as manhãs mirava e namorava a beleza daquelas serranias. Mirava e namorava a Serra da Estrela a nossa maior e ficava jubiloso quando com toda a sua pujança se me oferecia, bela com o seu manto de neve e o sol como seu amante acariciava-a bafejando mornamente com o seu calor tímido. Era dessa janela, que observava o bulício das gentes que no seu vai e vem davam vida àquela terra, a vida que hoje infelizmente está moribunda ou num estado vegetativo. Só falta dizer que quem hoje mora naquela casa é uma senhora Elvira viúva do ti Ricardo da Silva pai de um nosso condiscípulo José Rodrigues da Silva, julgo ser esse o seu nome completo.
A porta do clube estava ainda encerrada. Até parece o fado desta terra, ter os principais edifícios fechados. Dei a volta e entrei no ringue de patinagem. Aqui, está tudo mais ou menos como antigamente salvo, a falta da porta que do clube lhe dava acesso. No seu lugar há agora umas fiadas de tijolos colocados muito toscamente, nem rebocaram e muito menos pintaram. Serve ao menos para indicar aos vindouros que outrora por ali também se passava.
Olhei atentamente aquele espaço desportivo e por momentos visualizei com bastante nitidez o que se passou ali há muitos anos atrás: Foi numa noite quente de verão houve festa abrilhantada pela Filarmónica de São Jorge da Beira. Estava arrumada no lado direito do ringue, e enchia-nos com as modinhas em voga naquele tempo. As mesas previamente marcadas, estavam dispersas pelo recinto. Lembras-te meu amigo? O nosso grupo, ao qual nessa noite se juntaram outros amigos, lá tinha uma mesa reservada. Houve petiscos que eram empurrados por um capitoso vinho cuja marca vê lá tu, nunca esqueci. O nome que recebera foi “Surpresa” e que surpresa…
Esta noite, a memória não apagou. A magia estava presente: as estrelas pendentes brilhavam no firmamento; os pares redopiavam ao som da música; no ar cruzavam-se os aromas desprendidos pelos corpos ondulantes das raparigas e dos perfumes possivelmente contrabandeados como: “Flores del Campo” ou “Diamante Negro” e, talvez também, cheirinhos de marca omissa comprados a peso no armazém de víveres. Toda esta mistura de olores e com a cumplicidade do tal néctar “Surpresa” originou efectivamente uma noite inolvidável. Para culminar este romantismo, até arranjei uma namorada, namorada de uma só noite. Fui o senhor daquele ser ─ no bom sentido, claro ─ daquelas horas. Quem pretendesse bailar com a minha recém-conversada, tinha que primeiro ter o meu consentimento, condição por ela imposta. Era assim que dantes funcionava. Como disse foi um namoro de umas horas porque no dia seguinte, Domingo, com a conivência do nosso amigo Zé Marques, dei o dito por não dito e assim tudo ficou sem efeito. Por algum tempo, arrependido, andei de mal comigo mesmo, o procedimento não tinha sido nada correcto. O nome dela? Terás que avivar a memória se não te lembrares.
Bem, fomos andando que o calor apertava e ainda havia mais para ver. Estava mais sedento por aqueles lugares que propriamente por água.
Desci à praça e o velho coreto, um ícone, lá estava ainda de pé qual sentinela teimosa vigiando aquele espaço quase deserto. Ele assistiu, como única testemunha, toda aquela derrocada à sua volta: o talho, a padaria, o armazém de víveres, as garagens e sei lá que mais. Senti um imenso vazio e uma atroz nostalgia. Porém, ele, o velho coreto, tendo a seus pés o bairro de baixo também num estado de adiantada degradação, continua altaneiro a espreitar à direita, lá longe, a nossa Serra Maior e, desviando o olhar e seguindo a linha do horizonte já na Serra do Açor namora o simpático Picoto. Eu também gostei de namorar aqueles dois montes que configuram dois seios túrgidos de moça virgem. Pena foi, que nos tempos áureos, não tivessem construído numa das suas elevações, um grandioso monumento em homenagem a todos os mineiros. E, se fosse do agrado da maioria, no cume do pedestal fosse colocada a imagem de santa Bárbara, a padroeira, na condição de aparecer à comunidade mineira com os braços bem abertos abraçando e abençoando todas aquelas terras e toda aquela gente laboriosa. Quando se abraça, abençoa-se.
                                                              CONTINUA
Conde Da Gardunha

domingo, 14 de outubro de 2012

A LINGUA LAMBE (SEXO ORAL)


A LÍNGUA LAMBE (SEXO ORAL)


Carlos Drumond de Andrade, poeta maior, era adepto e escreveu um
belo poema sobre o tema:

A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos


E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfure
cidos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ARTIGO RETIRADO DA REVISTA "DOMINGO" DO JORNAL "CORREIO DA MANHÃ"

ARTIGO RETIRADO DA REVISTA "DOMINGO" DO CORREIO DA MANHÃ

JORNAL RUSSO TRAÇA PERFIL DO "MAIOR PORTUGUÊS" E APONTA-O COMO EXEMPLO

Em tempos de crise Salazar ainda traz saudade?
English. pravda.ru " DURANTE OS SEUS ANOS DE PODER, A ECONOMIA CRESCEU"

A crise portuguesa vista da Rússia tem uma solução: Ditadura. Que é como quem diz, no tempo de Salazar é que era bom! Foi esta a abordagem do tema num artigo com honras de página de abertura terça-feira no site do Pravda. Aí se lembra que Salazar foi em 2007 eleito o maior português de sempre, "derrotando o comunista Álvaro Cunhal [sic] com grande vantagem". E a cronista, Liuba Lul'ko, refere que "durante os seus 40 anos de poder a economia de Portugal cresceu: O PIB no início dos anos 70 era de 7% ao ano". E pergunta: "Por que razão a economia portuguesa não está agora nas melhores condições?" Difícil responder, dir-se-ia, mas Lul'ko arrisca: "Talvez o segredo resida nas qualidades pessoais dos políticos". E que qualidade são essas? "Antes de mais, "não trabalhar para os americanos ou para os alemães é importante". E o elogio, feito "sem negar os horrores de um regime totalitário", termina em beleza: " Sei o que quero e para onde vou", disse Salazar quando se tornou ministro das Finanças em 1928. Isso não é algo que pudesse dizer-se dos políticos portugueses modernos".

CONDE DA GARDUNHA

terça-feira, 4 de setembro de 2012

CINZAS


CINZAS
ARTIGO DE FERNANDO SERRA PUBLICADO NO JORNAL “ POVO DA BEIRA"

Quanto mais flagelado um país, maiores as torturas infligidas. Duas horas da tarde. Trinta e nove graus centígrados. Agosto. Céu muito azul, mas só por cima. A linha do horizonte expande uma névoa que a ilusão atira para manhãs imersas em ondas de sal. Mas o mar fica muito longe. Trezentos quilómetros reduzem-nos à realidade das sufocações e da prostração. Progressivamente o céu azul deixa de o ser, e a névoa, cada vez mais densa, difunde-se e o sol que era há pouco luminoso e límpido é agora marralheiro e turvo.
Subitamente acordamos da virtualidade e afundamo-nos no desespero do realismo fatal. Na crista da serra perfilam-se colunas espessas de fumo negro. Não tarda que os sentidos reajam ao cheiro insidioso a natureza queimada. O ruído de uma máquina voadora aguça presságios. Leva suspenso um gigantesco balde com água como a cegonha transporta o bebé das nossas ilusões pueris. Mas aqui, em lugar de nascer, mata-se. Os sanguinários da floresta rebentam todos os anos em cogumelos cada vez mais venenosos e perversos. São eles os protagonistas da vergonha, são eles os algozes de um país cada vez mais diluído na aridez e na inércia da resignação.
Já se ouve o grito sufocante das sirenes que, não tarda, roçarão os nossos sentidos em promessas de salvamento e solidariedade. Trazem homens pendurados, armados de machados que tentarão desenterrar refrigérios para infernos que seres menores atearam. Ao ruído da sua passagem eleva-se a vozearia rude da sueca na esplanada da tasca mosqueirenta e lúgubre.
─ Cubro com a manilha. E já ganhámos, parceiro! Mais uma rodada, ó Manecas!
─ Onde é que é isto hoje? Em Casegas? Porra, que é todos os anos a mesma merda…!
─ É aquele a embaralhar.
─ Filhos da p…, que mergulhavam todos o focinho na fogueira. Ah, carago, se eu mandasse…
─ É aquele a dar.
─ Trunfo é paus.
─ Os que já arderam, ou os que vão arder a seguir?
─ Deixa-te de porras e joga, que já ganhámos outra vez…
─ Não brinques com coisas sérias, Tomás.
─ Não brinques? O que é que falta queimar? Onde estão os gajos que mandam? Agarraram o “Bexigas Doidas”, o ano passado, e já aí anda outra vez, de isqueiro no bolso. E todos sabemos que não fuma. Sabes que mais? Porque é que não acabam de vez com esta palhaçada? Cá por mim, pode arder o resto, já hoje. Pinhais e quintas para defender é coisa que nunca tive. Esses que se preocupem…
Quando o cepticismo e a indiferença passam ao lado da tragédia, e o instinto de reagir é embotado pela letargia do discernimento, nada mais conta que a acomodação e a placidez. Tudo o resto são reminiscências atávicas consolidadas na iliteracia cultural de um povo atolado em depressões recorrentes.
Agora é uma ambulância que aparece e desaparece na vertigem de fugas e prioridades. Sumiu-se na última curva da estrada que as alternativas governamentais farão derivar para aceiros envergonhados, ladeados de lixo florestal por limpar.
E a natureza arde. A cumprir ciclicamente um mandato de morte anunciado. Mas eles estão lá. Farão o que puderem. Homens e mulheres na defesa, quantas vezes, de quem os maltrata. O cego mais cego é o que não quer ver. Meu Deus, e tanto cego por aí!
Sufoca-se. O vento auxiliador da desgraça arrasta consigo vagas de fumo cada vez mais negras e opacas. Cheira a fogueira de São João calendarizado não há muito. O dia que amanheceu luminoso, prenunciador de sossegos e calmarias, alguém o transformou num inferno de sobressaltos e angústias por resolver.
Alto de Silvares. As janelas abertas do automóvel deixam cair sobre o papel partículas de uma natureza a agonizar. Quisera juntá-las e devolve-las à consciência delinquente dos psicopatas que se movimentam impunes a uma justiça inerte e bafienta. A impunidade é a minha revolta e a abstracção a minha incapacidade de agir. Sendo assim, rodo a chave e arranco.
A noite chegou mais cedo ao acrescentar os seus negrumes ao céu de Inglaterra que se abateu, espesso e parado. Cisternas de bombeiros percorrem barragens, charcas e piscinas na busca autorizada do único elemento da natureza capaz de neutralizar com eficácia a fúria de um outro, seu irmão, aquele que mais depressa tudo reduz a átomos ─ o fogo. É uma luta fratricida, mas decretada por emergência que a aflição impõe.
Duas da madrugada. As labaredas que o dia esconde são as mesmas que de noite mostram cristas aterradoras, cada vez mais próximas do que ainda está por arder. O lugar é comum, mas o cenário é, de facto, dantesco e a luta, injustamente desigual. Mas eles continuam lá. Desistir não é o lema. “Vida por vida”. Até à exaustão. Até caírem para o lado.
Ninguém dorme. Como dormir com o inferno à porta? Estendem-se mangueiras e molham-se quintais. A lua, quase cheia, pouco ajuda, incapaz de romper a impenetrável massa de fumo. As forças minguam, tal com o vento parece ter amainado. Milagre? Pode ser. O turbilhão de chamas recrudesceu. Como a fera do circo a recuar, cobarde, ao som do chicote do domador.
Daqui a pouco é novo dia. Amanhã romperá vestida de cinzas poisadas em chãos fumegantes. Os primeiros alvores trazem recados pungentes de dor e desolação. A tragédia abatera-se sobre quem toda a vida fora abnegado e justo. Cortes e pardieiros irremediavelmente perdidos. Porcos a engordar até ao ano que vem, complemento bom de uma subsistência magra, jazem carbonizados. Hortas e vinhedos que, por caprichos e necessidades eram o orgulho de quem com sacrifício os amanhava e amava, o lume os devastaram completamente. Cerejeiras e pessegueiros onde melros e toutinegras ainda ontem trinavam hinos à natureza, morreram (de pé!), de cotos apontados a clamar justiça. De duas casas de habitação, restaram as paredes, e num quintal a carcaça de um carro velho e os aros das rodas de uma carroça antiga. A casa de amarelo pertencia a um modesto emigrante a compor a vida em França, porque a terra que o viu nascer tudo lhe negou até aos trinta e cinco anos. Não resistiu à derrocada emocional. Cometeu o suicídio, soube-se depois. Num bilhete que deixou escrito pedia para ser enterrado no país que o acolheu. Nem na morte quis regressar.
Não passaram muitas horas para que os jornais e as televisões abrissem com a fotografia de um jovem de vinte e nove anos de idade. A farda de bombeiro e o olhar intrépido fixado em auroras prometidas identificavam uma vida que acabava de soçobrar à insanidade de espécimenes que de humanos têm apenas a forma anatómica e nenhuma lei teve ainda a coragem de extinguir de vez.
Em tudo quanto foi terra de gasómetro e silicose a atmosfera continua de cinzas e o sol, vestido de luto. As mulheres redobram o preto e choram em grupos de corvos. Os homens, acocorados sob um castanheiro velho, de ouriços a abrir, gastam cigarros em baforadas de raivas e impotências por resolver há muitos, muitos anos. Os cães, seres extraordinários que tudo pressentem e entendem competem em latidos lúgubres com o ronco de um helicóptero em manobras de reconhecimento.
Por entre silêncios e diálogos surdos a tarde avança, pesada. Com ela recuam sonhos e projectos para longes sem regressos. Os velhos já nada pedem à vida, e os novos são aparições acidentais e fugidias.
Ao cair da noite, suspensa das traves de uma adega escura onde repousa o vinho acidulado e fresco uma corda grossa balanceava o corpo ainda quente de um homem de cabelo grisalho e barba por desfazer.
Ontem, à sueca, ele não tinha herdades nem pinhais para guardar. Agora, de olhos esbugalhados e vidrados no vazio, embala um filho morto, muito vivo além, porque apenas transpôs o território onde campeia a imperfeição humana.
Dos dois só a memória dele perdurará.

Fernando Serra



PORTUGAL ESTÁ EM CHAMAS. TODOS OS ANOS ARDE MAIS UM POUCO. SOLUÇÕES PARA INVERTER A SITUAÇÃO NÃO SÃO TOMADAS A SÉRIO. CULPADOS? SIM HÁ-OS E MUITOS. PUNIÇÕES? ESSAS FAZEM-NOS CORAR DE VERGONHA. E, POR ESSA VERGONHA QUE NOS RUBORIZA PELA SUA INEFICÁCIA LÁ VAI... REBIMBA O MALHO

CONDE DA GARDUNHA 

domingo, 27 de maio de 2012

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS - O SENHOR VENTURA

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS

O SENHOR VENTURA

Do senhor Ventura, ninguém ou muito poucos se lembrarão. O senhor Ventura foi, penso eu, o primeiro encarregado do armazém de víveres na Panasqueira.
Quando o conheci com quatro ou cinco anos, já ele era um homem de idade avançada. Lembro-me da casa onde vivia e do dia do seu falecimento.
Era uma pessoa bem-humorada sempre com um dichote na ponta da língua no momento certo.
Certo dia, uma moça serviçal de um engenheiro foi ao armazém e, com ar desenvolto, disse ao senhor Ventura que a senhora a tinha mandado comprar um chouriço. Este, olhando-a por cima dos óculos de aros de tartaruga, respondeu: - Pois menina, hoje chouriço, só atado de uma banda.
A rapariguinha desandou sem sabermos se entendeu o que tinha acabado de ouvir.
No dia seguinte, apareceu o engenheiro com um ar circunspecto  chamou o senhor Ventura de parte e começou por lhe dizer: - O senhor com essa idade vai dizer uma coisa dessas à minha criada? Ao que o senhor Ventura respondeu com um ar muito sério: - Saiba o senhor engenheiro que ontem, chouriço, só mesmo desse. Do outro, chegou hoje se ainda for necessário, pode mandar vir cá a sua criada.
Sabe-se que foi o engenheiro que o levou mas, desta vez, um chouriço atado nas duas bandas.

Conde da Gardunha

quarta-feira, 23 de maio de 2012

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS - O SENHOR SILVA


RECORDANDO FACTOS E PESSOAS

O SENHOR SILVA                                                                                                 

O senhor Silva era o chefe da Acção Social na Panasqueira.
O senhor Silva tinha uma figura distinta, muito educado, bom falador, já com muitos cabelos brancos e vestia sempre fato completo. O lenço alvo a espreitar no bolso superior do casaco, dava-lhe um ar aristocrático.
Ora, como todos os comuns mortais, também o senhor Silva tinha necessidade de vez em quando fazer uma visita ao barbeiro - era assim que se chamava naquele tempo, ao homem que tratava de rapar a fuça e cortar a gaforina -.
O barbeiro em função era o ti Zé Manteigas, um homem bom, de sorriso fácil e que não se escamava por dá aquela palha. Porém, sofria de uma tossezita persistente e irritante que provavelmente só a tumba lha tirou.
O senhor Silva estava sentado na cadeira e o ti Zé Manteigas a cortar-lhe as repas excedentes mas, sempre a tossicar para o pescoço do chefe da Acção Social. e, tantas foram as vezes que este muito incomodado se volta para trás e diz ao "Fígaro" - ... e se você fosse cagar isso não lhe passava? .
Coitado do ti Zé Manteigas, ele bem sorriu, mas foi talvez o sorriso mais amarelo que ele esboçou na sua vida.

Conde da Gardunha.
                                                                                                     

segunda-feira, 14 de maio de 2012

AO QUE CHEGÁMOS

AO QUE CHEGÁMOS

                                             
        No jornal que leio diariamente desde há longos anos, vi uma notícia que me deixou atónito, deixou-me incrédulo que a não ser pela gravidade em causa, seria no mínimo motivo para gargalhada estridente
        O título diz tudo e, rezava assim: - “Professores do norte têm aulas de artes marciais para se defenderem dos alunos.
        No mesmo jornal mas em data diferente anunciava que as armas nas escolas são mais que muitas.
Ao que chegámos!
        É no mínimo patético para quem, como eu, teve a sorte de ser ensinado muito antes da Abrilada. Naquele tempo, não havia energumenozinhos mimados, com a veleidade de desestabilizar uma aula. Naquele tempo, como havia professores que se davam ao respeito, também havia pais que sabiam dar uma chapada no filho sempre que este a merecia. Era uma consonância perfeita entre professor e pai para bem do adolescente. Naquele tempo, os pais não iam pedir satisfações aos professores pelo mau aproveitamento dos seus rebentos. Quando estes perdiam o ano, os pais sabiam como agir que depois de reprimendas sucessivas vinham por via de regra os respetivos castigos.
        Na escola, é fundamental que haja respeito pelo professor porque não havendo, propicía desmandos como a falta de respeito ou a rebeldia até para com os seus companheiros. Não sei como nem porquê em deixarem os putos tratarem por “ó professor” omitindo o Srº. É claro que todos estes pormenores podem contribuir para uma demasiada intimidade que quanto a mim é prejudicial. Manter uma certa distanciação é saudável, põe em evidência uma hierarquia que deve ser respeitada e o aluno desde logo se apercebe disso.
        Por outro lado, há muitos pais que se demitiram da educação dos seus petizes delegando no professor, também essa incumbência. Ora, a vocação do professor, não é educar mas instruir que foi para isso que estudaram e fizeram o seu curso. Não tiraram das escolas a disciplina de moral? Então? Seria bom que alguém do governo tivesse a coragem em substituir o nome de Ministério da Educação por Ministério da Instrução ou por Ministério do ensino. Assim, evitavam-se confusões e repunha-se o verdadeiro nome para o qual está dirigido.
        A escola de hoje peca por falta de disciplina. Quando andei na instrução primária, os professores tinham as quatro classes com dezenas de alunos na mesma sala. A disciplina permitia ouvir os aparos arranharem nas folhas do caderno, ou o ponteiro a riscar nas ardósias. Havia castigos corporais? Claro que sim! Uma palmatoada por cada erro ortográfico ou quando o professor dava conta, uma canada naquele aluno que cochichasse com o companheiro. Houve traumas por isso? Não sei de ninguém que tivesse sofrido dessa maleita hoje em dia tão em voga. Ninguém necessitou de psicólogos nem se ouvia falar destes senhores que quanto a mim estão mais perto da doença do que da cura.
        E o que dizer dos chamados hiperactivos? Não existiam simplesmente e, se alguém tivesse essa tendência, era aplicada a psicologia vigente e lá se ia a hiperatividade.
        O proteccionismo exagerado, é nefasto para aqueles que começam um novo ciclo da sua vida, neste caso a aprendizagem das primeiras letras.
        Hei-de voltar a este tema numa outra crónica.
        E, pelo estado vergonhoso que deixaram chegar as escolas deste país, como não podia deixar de ser... REBIMBA O MALHO!


Conde da Gardunha



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

OS REIS MAGOS

OS REIS MAGOS
    
    Pensa-se que os três Rei Magos fossem sábios astrólogos e considerados Reis por serem muito poderosos e terem oferecido a Jesus presentes magníficos: ouro para honrar o Menino como Rei; incenso para o reconhecer como Deus e mirra para significar que Ele era homem verdadeiro.
     Estes magos chamaram-se:
GASPAR que significa o que vai com amor
MELCHIOR o que anda com suavidade e guia usando a mansidão
BALTAZAR o que obedece prontamente sem discutir a vontade de Deus
     O Evangelho ensina que vieram do Oriente guiados por uma estrela diferente de todas as outras e, ao seguirem-na, chegaram ao presépio onde ajoelharam e adoraram o Salvador.
     Existem muitas tradições para se comemorar o dia de Reis como ter a romã à nossa mesa e que deve ser comida tendo ouro numa das mãos. Deve-se guardar sete bagos durante todo o ano para que à família na falte dinheiro. É uma tradição não muito usual entre nós embora muito antiga noutras paragens.
     Outro costume também já antigo, calcule-se do tempo dos Reis Magos. Estes quando chegaram perto do presépio tiveram um problema: qual deles faria em primeiro lugar a oferta ao Menino? Valeu-lhes um artífice que se prontificou a confeccionar um bolo que teria a forma redonda com uma abertura no centro e enfeitado com frutos secos e cristalizados de maneira que desse a impressão serem pedras preciosas encastoadas como de uma coroa real se tratasse. Todavia, no interior colocaria uma fava. Partido e distribuído, iria em primeiro lugar aquele que fosse contemplado com ela. Não nos diz a lenda qual deles teve esse privilégio. O caso espalhou-se e foram os pasteleiros os responsáveis pela sua divulgação.
     Noutros quadrantes, outros usos existem como em Macau que nessa data respira-se um ar de festa durante vários dias e em casa alguma faltam as tangerinas quer em pratos, quer penduradas em pequenas tangerineiras envasadas visto serem consideradas o símbolo da riqueza eda prosperidade.
     Em Espanha, a festa dos Reis Magos é uma das mais importantes das festas do Natal. São os Reis que trazem os presentes para as crianças por isso, elas deixam à noite nas varandas ou janelas, cestos para as recolherem. Mais vale assim, do que acreditarem no pai natal.

CONDE DA GARDUNHA        


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O NATAL - CONTINUAÇÃO (AS JANEIRAS)

O NATAL - CONTINUAÇÃO (AS JANEIRAS)
As janeiras como o nome indica, são cantigas de Boas Festas por ocasião do Ano Novo também chamado Ano Bom e por conseguinte cantadas em Janeiro.
Talvez assim acontecesse ou ainda aconteça em muitas terras. Porém, onde me criei, as coisas não se passavam bem assim. As janeiras vinham muito antes, logo que o calendário perdia a folhinha do Novembro, eis que os janeireiros da minha infância, aí estavam. Eram grupos de rapazes que percorriam o lugar com suas cantigas de adular embora falando sempre do nascimento do Menino.
Enfrentavam heroicamente umas vezes o vento nordestino que impiedosamente açoitava aquela serrania assobiando lugubremente por aquelas escarpas, ou as chuvas álgidas tocadas por rajadas que encharcavam até aos ossos qualquer cristão, ou ainda, a neve que de mansinho caía lentamente cobrindo de branco aqueles caminhos sinuosos e alcantilados. Foi com razão que empreguei - heroicamente – porque na verdade, era bravo o clima por aquelas terras do fim do mundo.
Estes rapazes de rija têmpera, não vergavam por maior que fosse a borrasca. As suas vozes lá longe, ouviam-se ora mais nítidas ora mais sumidas, consoante o vento as trazia ou as levava.
Gostava deles e é com imensa saudade que os recordo. Só uma vez ouvi o “Talinca Martelos” como lá se dizia. Foi dedicado a um vizinho que tinha por hábito deixar os rapazes cantarem e recantarem sem que lhes desse a devida recompensa. Foi numa dessas noites que ouvi então:

Talinca martelos
E torna a talincar
Este barbas de chibo
Não tem nada pra nos dar.

Terminado este mimo, eis que eles aí vão numa abalada desordenada porque nunca se sabe qual a reacção de um recém-promovido a “Barbas de Chibo".   Rara era a noite que pela nossa porta não passassem dois ou três destes grupos. Assim que ouvíamos a voz do solista sabíamos logo de quem se tratava. O melhor era o Manel Serrão, aliás, todos os irmãos tinham muito jeito para as cantorias, salvo o Zé que era surdo-mudo. Mesmo assim, não obstou que numa dessas noites, na sua voz gutural louvasse o Menino Jesus juntamente com outros.

O Manel Serrão começava:
                                           “Inda” agora aqui cheguei
                                           Pus o pé nesta escada
                                           Logo o meu coração disse:
                                           Aqui mora gente honrada.

O refrão era atacado por todos:

                                           Aquela lapinha
                                           Coberta bem c’um véu
                                           A Virgem bem guardada
                                           P’los Anjos do Céu
                                           Ó Anjos do Céu
                                           Que tão bem cantais
                                           Cantai ao Menino
                                           Bendito sejais!
Continuava o Serrão:

                                           Viva lá senhor ……..
                                           Raminho de salsa crua
                                           Quando vai pró trabalho
                                           Ilumina toda a rua.
Entra o coro:
                                           Aquela lapinha
                                           Coberta…………
Vem o Serrão:
                                           De quem é aquela bola
                                           Que ali está no corredor
                                           É do menino…………
                                           Que é um grande jogador
Novamente o coro:
                                           Aquela lapinha
                                           Coberta………….
Continua o Serrão:
                                           De quem é aquele livro                                
                                           Que ali está naquela estante 
                                           É do menino…………..
                                           Que é um bom estudante.
Segue o coro:                                           
                                           Aquela lapinha  
                                           Coberta………….
Arremata o Serrão:                                           
                                           Levante-se lá minha senhora  
                                           Desse banquinho de prata  
                                           Venha dar-nos as janeiras  
                                           Q’está um frio que mata.
           
Terminada a cantiga, abria-se a porta de casa e eram gratificados com dinheiro ou com outros mimos que antes dos agradecimentos eram guardados zelosamente.

CONDE DA GARDUNHA


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O NATAL

O NATAL



(EXCERTO EXTRAÍDO DE UM OPÚSCULO QUE ESCREVI HÁ MUITO)


O Madeiro ou Tronco também assim chamado, é trazido pelo rapazio num carro puxado por uma junta de bovídeos. Também aqui houve já uma mudança graças à evolução. Hoje os pachorrentos e simpáticos animais, foram substituídos pelo tractor que com o seu atrelado lá chega ao adro da igreja com menos demora mas, também com menos poesia.
A tradição manda que o tronco seja roubado e que se o dono tiver alguma desconfiança, finja que nada sabe e facilite a vida aos rapazes que se preparam para lhe subtrair algo que servirá para aquecer aquela noite que também por tradição deve ser fria de bater o tarau e o ambiente ficará completo, se alguns farrapos de neve esvoaçarem no espaço. Deus dê muita saúde e vida a quem já teve esse privilégio.
Muito antes da meia-noite, já as pessoas começam a abandonar os seus lares com destino ao adro da igreja onde se encontra o madeiro. Vêm encapotadas, golas bem puxadas para cima enquanto as boinas ou chapéus bem chegados para as orelhas. As mãos, quando não estão bem no fundo dos bolsos, friccionam-se uma na outra ou bafejam-se para que os dedos não fiquem encaramelados. Os narizes por via de regra, estão vermelhos devido ao ar gélido que os fustiga. O pingo que teima em aparecer, logo desaparece numa fungadela e então é o aparece e desaparece até que, acaba por morrer nas costas da mão.
O povo vai chegando e vai ficando em redor do madeiro já esbraseado. O adro está enrubescido pelas línguas de fogo que numa dança voluptuosa, vão lambendo como a querer acariciar e, aos poucos, vão tomando posse do madeiro.
Enquanto os olhares estão presos naquele bailar das chamas acompanhadas de vez em quando de miríades de faúlhas, esticam-se os braços e aquecem-se as mãos ao mesmo tempo que batem os pés no lajedo ou no chão térreo.
Depois vem a dança da garrafa da aguardente que rodopia de mão em mão, ou para melhor dizer, de boca em boca e, no final de cada emborcação, segue-se sempre um aaahhhh!!!!  ou um estalido com a língua que ela é da rija.
Os corpos vão estando com boa temperatura tanto por dentro como por fora. As conversas animam-se, a risada fácil aparece e não tarda que alguém comece a cantar bem alto loas ao Deus Menino, logo seguido por todos    
                 
                 Alegrem-se os Céus e a terra
                 Cantemos com alegria
                 Já nasceu o Deus Menino
                 Filho da Virgem Maria

                 Ó meu Menino Jesus                
                 Ó meu menino tão belo          
                 Logo vieste nascer
                 Na noite do caramelo.                   

Entretanto a meia-noite chegou e o sino da igreja faz o convite para a Santa Missa, chamada a Missa do Galo, que a maior parte das pessoas se apressam a participar.
Gostei sempre de estar presente nessa Missa talvez por ser celebrada àquela hora ou simplesmente pela magia daquela noite.
A Missa do Galo era fértil em peripécias, era mesmo difícil conter o riso em certos momentos. Não eram cenas maldosas nem carecidas de respeito, se elas aconteciam, a culpa era da alegria contida nos corações estimulada porventura pela bebida ingerida à volta da fogueira. Contudo, se havia alguém mais sisudo e fizesse o respectivo reparo, imediatamente o prevaricador afivelava o rosto com o ar mais seráfico possível o que dava azo a uma maior vontade de rir.
Do que estava sempre à espera, era dos cânticos em louvor ao Menino. Enquanto as fieis devotas chegavam ao fim do cântico em tempo devido, outros fiéis devotos iam ainda aí pelo meio. O hino saía numa cadência lenta embalado em hálitos etílicos e o resto do pessoal, pacientemente, esperava que a última voz penosamente chegasse ao final.
O que de facto tinha maior relevância era que todos louvavam e festejavam o nascimento de Jesus, fosse em compasso binário ou quaternário.
Nesta Missa por hábito, dá-se a beijar a imagem de Jesus e eu, menino de Capela-mor, ia observando todo aquele cerimonial. Os fiéis subiam pela coxia central e desciam pelas laterais. Enquanto uns beijavam a uns centímetros da imagem, havia no entanto outros principalmente os mais idosos que de lábios arrepanhados pela ausência dos dentes, beijavam ali mesmo, de chapa, aquele corpinho róseo que era um regalo. Saía um beijo sonoro como a quererem mostrar ao Redentor o quanto gostavam Dele.
Depois de ouvida a missa, agrupavam-se de novo em redor do brasido em franco e alegre convívio.
Na maioria dos lares a ceia estava à espera. Era a consoada. Importava pois fazer jus ao trabalho das mulheres que não se poupavam em confeccionar os pitéus tradicionais desta festa.


(CONTINUA)


CONDE DA GARDUNHA