REBIMBA O MALHO

REBIMBA O MALHO

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

EXUMAÇÃO

EXUMAÇÃO

Uma manhã de Agosto. O sol, já dardejava os seus raios. Previa-se um dia de suar as estopinhas. No cemitério onde estava, procurei a sombra esguia de um cipreste  Por companhia o coveiro, alto, seco de carnes, abria uma cova. Conheço-o de há muito e, lembrei-me de António Nobre, que sabendo-se condenado, fez um pedido àquele que o acomodaria na sua última morada.
Continuava a tirar a terra às pazadas com movimentos certos e contínuos.
─ Vou levantar as ossadas do que está aqui. Por engano foi enterrado numa cova que não era dele e, o dono legítimo pois a comprara, morreu esta noite, agora a família reclama-a. ─ Justificou-se.
Falei com os meus botões: até na morte há despejos, só que neste caso o despejo era de despojos.
O coveiro ia descendo à medida que o buraco ia ficando mais fundo. Por fim, do sítio onde eu estava, só via a terra atirada pelo ar.
─ Já apareceu - Exclamou!
Movido por uma curiosidade mórbida, deixei a sombra e abeirei-me do coval. O esqueleto estava ainda completo, salvo o crânio que  estava de lado. Tudo o que vi estava limpo de carnes e de preconceitos. Disse para os meus botões: Eis  o futuro de todo o vivente.
- Lá vai a bolinha disse o coveiro num tom de quem está habituado há muito a lidar com os restos dos que partiram.
A bolinha era a caveira que rolou para bem perto de mim o que me deixou deveras impressionado. Tinha ainda   ligaduras laças a envolve-la, porventura devido a alguma intervenção cirúrgica. Parecia que me olhava com seus olhos vazios. Os maxilares cerrados dava a sensação de riso asssacanado escorrido por entre dentes grandes e ferruginosos. Riso de escárnio quem sabe apodando  de puta à morte por o ter vencido, ou de puta à vida por lhe ter sido madrasta.
Saí daquele campo do silêncio, abatido, não só pela  cena que tinha assistido mas, também por por aquele sol que estava inclemente. A minha cabeça entrou em turbilhão  com os pensamentos mais díspares.
O que deveria ter sido e no que se tornou: pó, cinza e nada.




Conde da Gardunha

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

SOBRE LIVROS E SEUS AUTORES ( I )

SOBRE LIVROS E SEUS AUTORES ( I )

Aos seis anos já sabia ler e escrever palavras simples, devido ao zelo do meu pai e, principalmente, vontade minha. Aprendi a ler com relativa facilidade, pois preferia que as histórias fossem lidas por mim do que por outrem.
Esta relação apaixonada pela leitura, nem sempre foi pacífica, não pela minha parte como é óbvio, mas por parte de outros que, julgo eu, não deviam ter qualquer interferência. Isto penso eu agora, distanciando-me do tempo em que havia sempre alguém da família e até fora dela que vigiavam as nossas leituras.
As minhas primeiras leituras foram os livros editados pela Majora que publicava livrinhos com gravuras apelativas e letras de tamanho maior, próprias para quem começava a ler.
Depois, as revistas aos quadradinhos que me encantavam e deliciavam como o Mundo de Aventuras, o Cavaleiro Andante… (Quando pensei escrever esta crónica, conversei com o meu querido amigo de infância António Marques o meu fornecedor destas leituras que me disse: Não te esqueças de mencionar o Titã que era na altura, a melhor banda desenhada.
Outras paixões se seguiram como os livros das colecções:  Búfalo, Bisonte, FBI, Detective, etc. todas publicadas pela Agência Portuguesa de Revistas.
Depois, outras paixões vieram como o Émile Salgari e Júlio Verne que cada um à sua maneira me extasiava.
O livro “Leituras”


foi o meu livro na quarta classe e, continha um extracto de um romance de Júlio Dinis do qual gostei particularmente. Desde essa altura fiquei com a curiosidade de saber toda a história do livro. Fixei o nome do autor mas, segundo julgo, não estava mencionado o título da obra. Resolvi então ler a obra deste autor e o tal texto que me encantara, encontrei-o na Morgadinha do Canaviais.

Numa tarde de Verão, o meu amigo Ernesto Freches sabendo do meu interesse por livros convidou-me ir a sua casa. Quando entrei no seu quarto, fiquei em êxtase: as paredes estavam literalmente forradas por estantes repletas de livros. Percorri com o olhar a lombadas de variegadas cores ao mesmo tempo que lia alguns títulos e seus autores. Quantas histórias, quantas personagens estavam ali naquele espaço a minha imaginação começou a funcionar. Com a autorização desse amigo levei para casa dois volumes da colecção Rocambole.
Mal pensava eu que por causa destes livros vinha o primeiro dissabor que me deixou perplexo e revoltado.
Estava a saborear a leitura do primeiro volume, numa tarde, rente ao jantar, quando o meu pai resolveu investigar o que lia o seu filho primogénito como se fosse filha casta e pura. Pediu-me o livro e, por azar, logo foi parar numa página onde aparecia a palavra “cabaré”. Palavra mal-afamada com sinónimo de perdição. Vi na cara dele que vinha aí borrasca e não me enganei. À medida que me dirigia palavras revoltas atirou o livro de encontro à parede que por sorte não o danificou. Pensei comigo: Ena, o meu pai foi o único até agora, que conseguiu encostar o Rocambole à parede e com que violência.
Esta atitude que ainda hoje condeno, só serviu para aguçar a minha curiosidade e de certo modo fazer a minha vingançazinha. Li toda a colecção não em casa, mas debaixo dos pinheiros por cima do campo de ténis. Pais impertinentes fazem os filhos desobedientes.
Este foi o primeiro dissabor. O segundo foi mais sério que se chegasse a acontecer, teria havido em casa um terramoto de fazer inveja ao de 1755.
Quando do tempo da Desobriga altura de se confessarem pelo menos uma vez por ano era hábito na Panasqueira vir um pregador, para fazer a devida preparação. Pregava do púlpito obrigando os fiéis olharem-no de lado, o que sinceramente era incómodo.
Nessa altura, ainda ia a todos os actos religiosos e cumpria mais ou menos com os mandamentos da Santa Madre Igreja. 
Por hábito confessava-me ao pregador, era de fora e levava para bem longe os meus pecadilhos. Também é verdade que me confessava na última da hora que era para ter menos tempo para pecar até à comunhão.
Ajoelhei qual criminoso à procura do perdão e encetámos uma conversa que adivinhei não ir dar bom resultado. O tonsurado depois de querer espiolhar e não ficasse satisfeito com o que tinha catado, pergunta-me: você tem hábitos de leitura? Pensando eu que isso não era pecado, respondi que sim. E ele com voz melada volta à carga: E o que tem lido? Bem, pensei: vamos falar sobre livros e isso agrada-me. Ingenuidade! Quando o informei que tinha acabado de ler alguns livros do Émile Zola é que foi o Diabo.

Não lhe posso dar a absolvição. Sentenciou o Inquisidor. F…….-se e agora? Por mim está tudo bem, mas, e os meus pais se não me vêem amanhã comungar? (foi este o meu pensamento). Então passo a ser quase um excomungado somente por ter lido um autor que a igreja o tinha colocado no índex?
Nada disse e aguardei a decisão final. De repente o “judas” perguntou: Compraram as bulas este ano? Que vontade de rir me deu. Vou comprar a absolvição. A resposta que dei foi que sim senhor tinha comprado.
Agora a melhor do safardana: Vou dar-lhe a absolvição não só porque tem as bulas mas, vai aqui prometer-me que quando chegar a casa a primeira coisa que vai fazer é queimar todos os livros desse escritor.
Claro que prometi, não custou nada a promessa.
Pensava ele que ainda estávamos na Inquisição comandada por um tal Torquemada.
Este padre de má memória e outros tantos como ele só contribuem para tirar a pouca fé que as pessoas ainda teimam em tê-la.
A paixão pela leitura continua a mesma e, não haveria entraves por maiores que fossem que fizessem  eu abandonar estes meus amigos dilectos que são os livros.


CONDE DA GARDUNHA

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

SOU COMO VÓS

SOU COMO VÓS

Eu não nasci para ter a glória
De deixar o meu nome na História.
Ou, de apodrecer amarrotado
Algo de meu nas folhas das Selectas!
Eu que passo convosco lado a lado
Oh! Gentes rudes…
Sou como vós: Obras incompletas!

Sou como vós!
Venho aos baldões desde o princípio
A gritar o meu tormento…
E sou vela ao vento, girando, girando!
De roda, de roda!
E sou onda que vai e que se vem quebrando
Lamber a praia toda…
Rolando, rolando!

Sou como vós… com a diferença
Que agarro estrelas
E brinco com elas
Como uma criança!
Conde da gardunha

terça-feira, 3 de setembro de 2013

AS ESCOLAS, OS PROFESSORES E O ENSINO

AS ESCOLAS, OS PROFESSORES E O ENSINO                                                      
No meu tempo, a Panasqueira tinha duas escolas geminadas situadas a poente do casario. Eram de boa construção e estavam apetrechadas com todo o material inerente ao ensino e, até tinha aquecimento através de estufas alimentadas a lenha. Em termos de comparação, seriam as salamandras de hoje, mas sem adornos.
O acesso fazia-se subindo primeiro quatro ou cinco degraus de pedra, um patamar, e deste partiam duas escadarias também de pedra: uma para a direita e ia dar à escola das raparigas a outra dava para a dos rapazes. Vencida esta subida, estava ligeiramente à direita a porta principal de acesso, protegida por um alpendre com varandim de madeira. Ao transpô-la, entrávamos numa antecâmara que servia para guardar a lenha previamente acamada e ao mesmo tempo de pátio de recreio nos dias chuvosos.
Dentro da sala principal, ao fundo do lado esquerdo, estava o quadro preto assente num tripé de madeira. Ao centro e em cima de um estrado, a mesa de trabalho do professor. Por detrás, dependurados na parede, um crucifixo e a ladeá-lo, as figuras supremas do Estado Novo, bem como, mapas de Portugal e outros. À direita de quem entrava, ao fundo, ficava uma divisão, habitualmente fechada e servia para guardar todo o material didáctico e também um presépio com bastantes figuras que nas vésperas das férias do Natal era armado pelos alunos sob a orientação do professor.
Contíguo à escola, havia um recinto murado com uma área suficiente para os nossos recreios.
A sala comportava as quatro classes do Ensino Primário, o que resultava num elevado número de alunos, para cada professor.
Os livros, tinta para escrever e todo o material necessário para o bom funcionamento do ensino, eram fornecidos gratuitamente pela Companhia, proprietária de todo aquele couto mineiro que compreendia três povoações: Panasqueira, Barroca Grande e Rio.
Para conter a possível rebeldia própria daquelas idades, e também devido – como já disse – ao excesso de educandos, estava implementada uma disciplina quase férrea que podíamos traduzi-la por um misto respeito-medo. A pedagogia imperante era regida pela cana-da-índia e pela tão temida régua. O professor tendo à mão estes dois objectos disciplinadores, conseguia uma sala repleta de alunos num silêncio quase absoluto. Porém, se alguém tinha a veleidade de algum desmando, não escapava sem levar uma ou duas varadas que por vezes escorregavam da cabeça para as orelhas quando eram mal dirigidas. Este era considerado um castigo menor porque o professor que me levou ao exame da quarta classe, esse, arremessava a régua e… lá ia ela pelos ares volteando até cair certeira na cabeça do desatento. Várias foram as vezes que houve a necessidade das vítimas terem de ir ao Posto de Socorros, a fim de receberem assistência.
Queixas ou lamúrias sobre a conduta do professor, não me lembra que as tivesse havido fosse de quem fosse, até porque eram os pais que conferiam ao mestre, na maior parte das vezes, o poder de castigar os seus filhos. Em alguns casos fui testemunha, de o pai quando acompanhava o filho pela primeira vez, recomendar: - sempre que ele precisar arreie-lhe. – Foi o meu caso e do meu irmão. - A partir daí, ficávamos sujeitos às arbitrariedades do zeloso protector.
Não adiantava ao castigado ir para casa com queixinhas porque sujeitava-se a levar a segunda dose, ou quando muito, receber como resposta: - Foi porque as estavas a pedir. Como não havia outra alternativa, o mais ajuizado, era apanhar e calar.
O professor que me levou até à terceira classe foi porventura o que mais violentamente castigava. Para dar uma reguada, despia o casaco a fim de lhe imprimir maior vigor. Foi por volta dos anos de 1948 ou 1949 – andava eu na primeira ou segunda classe – que somente dois alunos foram propostos para o exame da quarta classe. Se a memória não me falha e aqui fica desde já a ressalva, os propostos foram o João Monteiro Marques e o Luciano Covita Antunes.
As aulas terminavam às 15,30 horas. Porém, o João e o Luciano ficavam para além dessa hora, começando para eles um verdadeiro martírio porque a partir dessa hora, tinham a bem dizer, um professor particular, atento e sem contemplações. A pressão era tanta, que o Luciano a fingir ou não… desmaiava. O que mais desejavam era sair dali quanto antes, para não estarem sob admoestações alterosas e, o mais grave e doloroso, castigados com reguadas. Passado todo este tempo, sei agora a verdadeira dimensão do problema. A culpa não residia com certeza numa classe inteira e desta, só dois propostos para exame, sabendo-se ainda assim, com que dificuldade.
No que me diz respeito, confesso que ia sempre apreensivo para a escola, tomado pelo medo. Provavelmente era o que acontecia com todos os meus colegas porque nunca vi nenhum entrar na sala risonho e feliz a não ser nos Sábados. Nestes dias, cantávamos além do Hino Nacional, cantigas para as nossas idades como o “Foi na loja do mestre André” e outras. Tínhamos uma prédica sobre Moral, bem como, jogos e ginástica. Dado que a Companhia era inglesa até o hino “God Save The Queen” tivemos que aprender. Eram manhãs passadas descontraidamente, propicias às brincadeiras, para as quais estávamos mais vocacionados.
Como já referi, o ensino era severo ultrapassando a barreira da integridade física.
Apesar de tudo o aluno ao completar o Ensino Primário ficava com uma cultura geral, muito superior aos alunos de hoje com o 4º. ano
Na disciplina de português, ficávamos a saber ler correctamente com a respectiva pontuação e interpretar o que tínhamos lido, com o professor a questionar-nos. Fazíamos ditados, para corrigir possíveis erros ortográficos. Sabíamos de antemão que por cada erro dado, era passível de uma reguada. Quando era chegada a altura de o professor entregar os ditados já corrigidos, todos bafejavam as mãos em concha, para as aquecer porque assim, o castigo doía menos. Quando os erros eram muitos, as mãos ofereciam-se alternadamente, para a dor ser repartida. Tive um condiscípulo que era avesso à arte de bem escrever, pois num ditado dava 30 e 40 erros. O professor neste caso excepcional, nunca cumpriu com o estabelecido e ainda bem. Anos mais tarde, já adulto vim a saber que este amigo tinha tirado a licenciatura de engenharia. Provado ficou que o caminho futuro, passaria pelas ciências e não pelas letras.
Tínhamos que saber classificar cada letra ou palavra, mas para isso, já tínhamos aprendido os artigos, preposições, contraposições, advérbios, conjunções, todos os verbos nos seus tempos e modos que eram papagueados sem hesitações. Dividir orações, uma matéria que requeria muita prática, classificá-la, saber o sujeito, o predicado, complemento directo ou indirecto e além de tudo o mais, saber fazer uma redacção, era fundamental. 

Adquiri há anos um exemplar do livro de leitura por onde estudei na quarta classe. Escusado será dizer que o conservo com muito apreço. Ainda hoje acho que este “LEITURAS”  – assim se chama o livro – muito bem concebido porque além do aspecto gráfico ser óptimo, tem excertos das obras dos nossos maiores escritores românticos. Induzia-nos pelo menos a mim a procurar esses livros para sabermos como terminavam as histórias. A propósito, recordo de termos lido nessa altura, um trecho que me ficou na memória durante muito tempo, o que não aconteceu com o nome do seu autor. Num belo dia, estando a ler um romance, fiquei alegremente surpreendido ao encontrar o que há tanto tempo procurava. Finalmente, pude assim saber na íntegra a história daquele livro. Tratava-se do livro “MORGADINHA DOS CANAVIAIS de Júlio Dinis, o escritor português mais lido e representado, tanto no cinema, teatro e mesmo em folhetim na televisão.
Das outras disciplinas falarei o mais resumidamente possível como por exemplo a Aritmética. Trabalhávamos com os números quebrados e decimais com as respectivas reduções e operações. Os múltiplos e submúltiplos de todas as medidas desde as de comprimento até às de volume, passando pelas de capacidade, etc. bem como as suas equivalências: o metro cúbico é igual ao quilolitro; o hectare é igual ao hectómetro quadrado. Estas cantilenas foram   tantas e tantas vezes repetidas que tenho a impressão que ninguém esqueceu.
O grande problema – ontem como hoje – era resolver com acerto os problemas mais difíceis desafiando a nossa capacidade de raciocínio que a maioria não tinha. Requeria por isso, um maior estudo e prática aturada. Era na verdade um quebra-cabeças para todos.
Com a Geometria, aprendíamos o nome dos ângulos, dos triângulos e calcular a respectiva área, assim como os trapézios, traçar uma bissectriz, uma tangente ou uma secante Dava-nos a conhecer as várias figuras geométricas como a esfera, o cone, a pirâmide, o polígono, etc.
A Geografia ministrava-nos o ensinamento sobre o que era uma Baía, um Estreito, um Cabo, uma Península, uma Ilha e o que mais havia. Aprendíamos o nome dos onze principais rios, aonde nasciam, por onde passavam e aonde iam desaguar, bem como, o nome dos afluentes de ambas as margens. Ficávamos também a saber o nome de todas as serras e as linhas do caminho-de-ferro que eram apontadas no mapa pelo dedo do aluno, percorrendo a marcha de cada uma.
Por último, História, a matéria que mais gostava a par com o Português. Para quem a lesse e tivesse alguma capacidade de memorização, tornava-se fácil. Estudávamos todos os reinados desde D. Afonso Henriques até D. Manuel II. O respectivo compêndio tinha uma lição por cada reinado referindo os feitos mais notáveis. Na página seguinte, trazia um questionário com as respectivas respostas que não era mais, do que um resumo do que tínhamos lido e o professor explicado. Quem tivesse decorado as respostas, ia para a examina já mais afoito. Mas, não há rosas sem espinhos e nem bela sem senão. A História era uma disciplina propícia às odientas sabatinas que consistiam em pôr os alunos em confronto sobre o seu saber. Éramos colocados em semicírculo, com o professor à nossa frente a questionar-nos. Começava pelo da ponta e se este errasse e o que estava a seguir acertasse, este aceitava a régua entregue pelo professor e dava naquele. Aconteceu muitas vezes que o que castigava, ou porque era por ser colega ou por medo duma represália quando saísse, a reguada era frouxa com pouco vigor o que não convencia o professor. Este sorria e dizia-lhe: – como não sabes, vou ensinar-te. Ora estende lá o braço. Uma reguada é dada da seguinte maneira… – truz, lá caía ela sem dó nem piedade.
MORAL: tanto se apanhava sabendo, como ignorando.
Não fiquei com saudades daquele tempo.
Para terminar esta memória ao calor da lareira, recordo alguns.companheiros que fizeram comigo o exame da quarta classe, na cidade da Covilhã – o concelho – num longínquo mês de Verão. Fica aqui desde já, expressa a minha consternação por só me lembrar destes:
          Carvalho Jerónimo
          Jaime Loureiro                                                         
          Ramiro   
          Ricardo Dias Duarte
Desde essa altura que nunca mais tive notícias destes meus condiscípulos com grande pena minha.


CONDE DA GARDUNHA

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A MORTE FICOU-LHE A MATAR - PREÂMBULO

A MORTE FICOU-LHE A MATAR - PREÂMBULO

Há já alguns anos escrevi uma novela e, resolvi agora, transcrever o último capítulo já que contar toda a história poderia eventualmente tornar-se enfadonho. Tirando a personagem principal que é ficcionada, todos os outros intervenientes existiram e faço questão de os mencionar pelas alcunhas que tinham.       
Para entronizar os eventuais leitores nesta história, resumi-la-ei em breves linhas uma vez que só será publicado o derradeiro capítulo.
É a história da vida da menina Efigénia que foi menina até à sua morte em virtude de nunca ter casado. Não por falta de aptidão para o casamento mas, por falta de pretendentes. A menina Efigénia, beata militante mas, muito querida pelas gentes do lugar pelo seu espírito esmoler, nasceu, coitada dela, desprovida sequer de uma centelha de beleza. O que a mais desfeava eram dois dentes da fachada quais duas sentinelas avançadas que nunca se albergavam na respectiva guarita. Era pessoa de muitos teres e haveres e que tinha por morte dos pais, herdado a mais rica casa do lugarejo.
Todos os Sábados na sua casa apalaçada havia serões onde as artes predominavam que iam do teatro à música passando inclusivamente pela dança. O promotor dos serões era o Ti Zé Loureiro que uma corda a menos na sua rabeca não lhe trazia engulhos.
Ora, foi num destes serões que a menina Efigénia - menina com quase oitenta anos – se marchou desta vida contente vítima de uma apoplexia motivada por um riso constante e convulsivo por uma piada grosseira dita pelo Ti “Questiano” já com um grão nas duas asas.
Verificado o óbito pelo físico, este por mais esforços que fizesse, não conseguiu que os músculos do rosto da defunta tomassem o seu estado natural. Foi para a cova com um ar risonho e feliz.
É pois a partir deste ponto que se inicia o último capítulo da novela.



CONDE DA GARDUNHA

A MORTE FICOU-LHE A MATAR - ÚLTIMO CAPÍTULO ( SEM A PRONÚNCIA LOCAL)

A MORTE FICOU-LHE A MATAR - ÚLTIMO CAPÍTULO (SEM A PRONÚNCIA LOCAL)

Chegou o padre Manuel de sobrepeliz, estola roxa e, nas mãos, o livrinho das orações e o terço do rosário. O padre Manuel, homem alto e nédio vinha acolitado pelo Falhinho que levava presa numa das mãos a caldeirinha da água benta com o respectivo hissope e na outra mão a campainha presa pelo badalo não fosse ela tocar a destempo. O Falhinho de cabelo cor da seara pronta a ser segada, era um pobre rapaz que tinha por hábito de se servir da manga do casaco puído, para limpar as ventas mucosas. Na falta de mangas, usava a costa da mão que por sua vez ia direita à perna das calças.
O padre Manuel aproximou-se e, parou aos pés da defunta. Depois de uma breve oração, ripou do hissope bem ensopado que o Falhinho atento lhe facilitou.
- É a última "auga" que chupas – disse o acólito. Mas, não foi assim. O padre no momento de aspergir, dá de caras com a felicidade da morta e, é com um solavanco, por querer reprimir o riso, que a água benta passa a rasar o corpo da menina Efigénia e vai pespegar-se na cabeça descabelada do Evaristo que estava sentado à cabeceira da falecida.
Ora, o Evaristo, homem bilioso, tomou aquele desconchavo como uma afronta. Levantou-se impetuoso para ripostar mas, refreou-se quando viu estampada na cara do eclesiástico a aflição e um pedido de desculpas feito através de uma pequena vénia. Desta forma, deu-se por desafrontado. Sentou-se, puxou do lenço listrado e, ao mesmo tempo que enxugava a calva, ia murmurando: - Tiveste que te agachar, filho de quatro nalgas.
Sanado este incidente, os presentes aconchegaram-se a fim de fazerem um lugarzinho para o senhor prior. O Falhinho colou-se à sua ilharga não largando por nada as suas alfaias.
Iniciou-se a recitação do terço e, quando já iam dedilhadas quatro dezenas, apareceu a Maria Sem Pescoço uma das protegidas da que foi sempre menina. Não se incomodando com a toada da reza, disse em voz alta o que lhe ia na alma: - "Atão" menina “Fgénia”, deixou-nos assim sem mais nem outra; coitadinha, tão boa, tão santa, era o que se pode chamar um anjo. Merecia “inté” que Nosso Senhor lhe tivesse posto umas asinhas.
O Falhinho que tinha os olhos e ouvidos lampeiros, não se conteve. Com as fuças emolduradas por um sorriso alarve que deixava à mira duas dentolas intimadoras capazes de traçar um bom naco de broa em menos de uma Avé Maria, ripostou: - As asas fechou-as e entalou-as debaixo do…
O Perna D’Aço que não era para brincadeiras e que ultimamente andava com os azeites por ter que usar um colete ortopédico com o fim de lhe endireitar o espinhaço, evitou que saísse asneira. Estando atrás do Falhinho, sentenciou-lhe: - Cala-te cabrão! Se falas no cu da velha, arranco-te das patas a caldeira das benzeduras e dou-te com ela tantas vezes, até te rachar esses cornos.
O coitado do rapaz, de corado se fez verde passando pelo amarelo e, até a caldeirinha tremelicou. Mas, a Ti Rabeia das Virtudes que além de ser vendedeira, boa alma, e apaziguadora das excitações do rapazio do lugar, ouviu a reprimenda e advogou: - Parece impossível! Ora agora mais esta, ficava o rapaz, coitadinho, rachado e mal pago, só por ter a lembrança de dizer onde a menina poderia ter as asas.
O Perna D’Aço ia a retorquir se não fosse a pronta intervenção do padre Manuel que para isso deixou a meio um Pai Nosso: ─ Então, haja mais compostura, honremos e respeitemos quem partiu desta vida.
Assim se pazearam os ânimos. A recitação do  terço terminou e, como era chegada a hora, começaram a preparar a menina Efigénia, para ser levada à última morada que distava uma meia hora em passo cadenciado.
À porta, já esperavam três irmãos das almas com o respectivo estandarte. Eram eles o Colhouço que era o porta-estandarte, a ladearem-no segurando nos cordões estavam o Zé Panaita ainda arrimado à sua muleta e o Ti Manel João, tendeiro.
Não haveria nada de peculiar nestas três personagens, se não tivessem em comum, o mesmo defeito físico: todos eles eram coxos mas, coxos a valer. O mais torto, o que mais se evidenciava, era o Ti Manel João que a cada passada ao apoiar-se na perna manca, dava mesmo a ideia que ia ruir.
O cortejo fúnebre organizou-se: na vanguarda ia o Falhinho que fazia vibrar a sineta a cada pé de passada, ao mesmo tempo que pontapeava todo o seixo reboludo que estivesse ao alcance das suas botas de ver o sebo, brochadas e com a biqueira empinada a espreitar o Céu. Seguia-se-lhe o tonsurado que orientava as orações durante o percurso. A irmandade depois e, antes dos acompanhantes, o féretro. Este, segundo o hábito naquela aldeia, era transportado numa carreta e o caixão ia destapado para que o povo pudesse pela última vez, ver a face do irmão que partira.
O estandarte das almas, lá ia adejando numa louca tormenta sacudido impiedosamente pelos sacões descoordenados transmitidos pelos três chanquetas.
Quem não despregava os olhos da bandeira, era o Rebola Caixotes que se destacava pela sua gaforina em remoinho e a carcela das calças por abotoar por onde assomavam timidamente parte das ceroulas de flanela. Às tantas, não se conteve e vaticinou para o Redolho com um ar assacanado: - Cá para mim, aqueles cochambetas dum catano, ainda fazem com que as almas se despeguem da bandeira e venham sacudidas por’i abaixo afocinhando no chão. Enquanto o Redolho ria a bom rir com o dichote pondo às escâncaras os dentes irregulares que o tempo se encarregara de os forrar com uma cor fuliginosa. O Palpito, criatura possante e de farta trunfa, estava por perto e teve que dizer das suas: - Merecias que te fosse às ventas seu filho da puta. Já não há respeito nem num acto destes?
O Redolho bem como o Rebola Caixotes acharam por bem calarem-se tanto mais, que viram como ao Palpito lhe fremiam as aletas do apêndice nasal e quando isto acontecia era sinal que estava prestes a soltar o seu génio violento.
De ambos os lados da estrada, estavam muitos populares que não se tinham incorporado no préstito que lá caminhava às vezes por caminhos acidentados. Tanto assim, que o corpo da menina Efigénia com os solavancos até parecia ter movimento próprio.
Atento àquele quadro, estava o Chico Caixa vestido como sempre à “cáboi”: chapéu de abas reviradas, calças afuniladas e botas mexicanas de tacão alto favorecendo-o, pois ficava mais crescido. Era também anti-simpatia, anti-clerical, anti-religioso, enfim, era um anti a tempo inteiro. Deu-se até o caso que num Domingo de Desobriga, quando alguns bons católicos que estavam, depois de terem cumprido o seu dever, a beberricar na taberna do Ti Manel da Ribeira estar ele também presente. Não é que o safado se vira para o Amândio Bexiga, no momento preciso em que ele emborcou de um trago um cálice de bagaço e sem rebuço, atira-lhe esta anormalidade: - Tão, já estás a afogá-LO?
Os presentes, somente sorriram, não, que eles eram tementes e acharam melhor terem em conta o velho axioma: “Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus”.
Pois o nosso figurante, no alto dos seus tacões, movimentando um palito de fósforo que prendera na boca e com os olhos fisgados no caixão, gracejou: - Fico sem saber se a velha se abana por rir ou se ri por ser abanada. Os que estavam à sua beira e que eram da sua laia, deliraram, ficando toda aquela ala à beira caminho parada, bem-disposta e chalaceira.
Já a carreta tinha ultrapassado o largo portão de ferro do jardim das cruzes e ainda se ouvia o gargalhar daquelas almas danadas sem temor a nada e a ninguém.
- São uns ímpios, uns excomungados refilava a Ti Panchorra, virando a cabeça para donde vinha o som daquele despropósito.
Quem esperava encostado à sachola, era o Ti Manel Pilatos, elevado à categoria de coveiro interino, já que o efectivo, o Ti Chanfana andava às voltas com um cobrão que o trazia derreado.
Quando abeiraram o caixão, o Ti Pilatos descobriu-se metendo a boina no bolso traseiro das calças coçadas. O padre Manuel fez a última oração e, de seguida, então sim, a menina Efigénia recebeu a última água.
Fechado o sobretudo de pinho, foi baixado com a ajuda de cordas para o ventre aberto da terra e acomodado no fundo da cova.
O Ti Pilatos debitou o seguinte comentário ao mesmo tempo que arremessava os olhos piscos e vermelhuscos que enxugava constantemente com o lenço tabaqueiro amarfanhado e enxovalhado, para o fundo da cova: - Para quem não é da arte, até ficou um trabalho asseado. O talhe como convém, foi mesmo à justinha. Desejo que a menina F’génia conserve no Céu, o mesmo sorriso com que se foi da terra. Isto, dito ao jeito do Ti Pilatos, fez com que os mais próximos, o padre Manuel incluído, retivessem a custo o sorriso.
Só quando se ouviu o som cavo da terra a bater no tampo da urna, é que o povo debandou.
Já o coveiro interino dava os últimos aconchegos à terra, quando o sino se calou.
 - “C’um” raio, até me pareceu que a porra do sino em vez de dobrar, tocava à Aleluia. Hum! Se calhar fui eu que não me atentei bem.
Ia já de abalada, levando nos lábios um Pai Nosso, ao ombro a sachola e, com o lenço tabaqueiro limpando os olhos, ainda se voltou a fim de ver como tinha ficado catita a última morada da menina Efigénia.


Conde da Gardunha

domingo, 4 de agosto de 2013

SER POETA (AUTORES: ZÉ MARQUES E VICTOR SERRA)

SER POETA (AUTORES ZÉ MARQUES E VICTOR SERRA)   

  VICTOR SERRA

Ser poeta é ser diferente,
é sentir o que o outro sente,
é amar sem ser amado,
é rejeitar o seu fado.

Poeta é ver em tudo amor,
é ver o sol na tormenta,
é ser bálsamo na dor,
é sorrir quando acalenta.

Poeta é mente nascente,
é a quimera a brotar,
que com seu verso lucente,
leva a tristeza a placar.

ZÉ MA
O poeta é regadio,
dos alfobres de palavras
do trivial, arredio
um vedor de abracadabras.

O poeta é o recobro,
do carente em fantasia
e remédio p'ra soçobro,
com a bula em poesia.

O poeta é navegante,
no mar sito em verbo amar
e a estrofe sua amante,
musa ao leme a navegar.







sexta-feira, 2 de agosto de 2013

IDA AO FUNDÃO

IDA AO FUNDÃO

Anteontem fui ao Fundão e um dos motivos não o mais importante, era ir a um fotógrafo a fim de mandar revelar um rolo de fotografias. De vez em quando ainda gosto de tirar fotografias com uma máquina de rolo. Quando fui por elas, estavam presentes além do profissional, outras duas pessoas que saudei como pessoa educada que prezo ser.

Os presentes conversavam e, enquanto mirava os artigos da loja, ouvi um deles mencionar o nome da minha terra. Não me contive e meio a sorrir atirei: Não digam mal do Louriçal que eu não deixo. A pessoa mais jovem respondeu: Eu também não! Bem, estou com a minha gente disse para comigo. O menos jovem que soube depois que era da Orca disse-me em surdina: é padre.
Ora como não tenho grande relação com a igreja nem com o clero por motivos que não cabem nesta crónica, não o reconheci embora a cara não me fosse completamente estranha.
Porém, como tinha a curiosidade de saber quem era aquele meu conterrâneo perguntei-lhe se era o pároco do Louriçal. Estúpida pergunta porque de repente lembrei-me quem era. Tratava-se do Reverendo Padre André que tinha cantado a sua primeira missa há muito pouco tempo.
Entabulámos uma conversa muito agradável e fiquei deveras a admirá-lo por ser bom conversador e ser de uma simpatia natural.
Segundo me informou vai paroquiar: São Jorge da Beira, Panasqueira, Barroca Grande, aldeia de São Francisco de Assis e Silvares. Fiquei radiante e disso lhe dei conta por conhecer muito bem aquelas terras das quais tenho muitas saudades. Já sabe e, sem desprimor para as outras, que as gentes de São Jorge da Beira foram sempre muito hospitaleiras.
Árdua tarefa lhe foi atribuída mas tenho a certeza que o Padre André com a ajuda divina e o seu saber, levará por diante o seu mister pastoral.
Despedi-me dele desejando-lhe as maiores felicidades e fiquei com o sentimento de orgulho por um conterrâneo ir para onde vivi durante tantos anos. 



CONDE DA GARDUNHA 

terça-feira, 30 de julho de 2013

AS AULAS COM A MINHA NETA

 AS AULAS COM A MINHA NETA

Todos os dias depois do almoço eu e a minha neta temos uma aula de português. Ela tem só seis anos e passou para o segundo ano (antiga segunda classe) e, vai entrar no segundo ano, ainda com a mesma idade, pois só faz os sete em Dezembro.
No meu tempo, teria que repetir o ano pois sem as bases primárias seria impensável passar de classe. Porém, o ensino de agora segundo me apercebi é muito diferente para pior do que aquele que eu tive.
A caligrafia é péssima e a leitura pior ainda. Comecei por lhe dar lições do livro que ela teve durante o ano mas depressa me apercebi que a escolha do professor foi a pior. Resolvi então ir procurar o livro que eu tinha dado na primeira classe que o adquiri há uns anos e dar-lhe a lição por ele.
Foi o melhor que fiz: comecei do princípio desde a letra “A” até chegar às letras miudinhas.
Neste momento, sinto orgulho pois não sendo professor soube de alguma maneira escolher o velho método que deu frutos. Agora, a minha neta já lê quase correctamente e espero que quando for para a escola, saiba tanto como os mais adiantados.
Existe uma grande diferença entre os livros de agora e os de então. Estes são mais apelativos e, em cada lição têm um fundo de moral.
Se, segundo julgo, cada professor escolhe um livro para a sua escola, então o da minha neta não teve o conhecimento de saber escolher.
As lições continuam, faço questão de a ensinar o melhor que sei e, na aulinha, não há avô nem neta.

Conde da Gardunha

terça-feira, 23 de julho de 2013

RECORDANDO

RECORDANDO

Não há muito tempo que tive de levar a minha a mulher a Castelo Branco para apanhar o autocarro que a levaria a Coimbra por solicitação de uma familiar.
A madrugada estava agradável e o sol ainda não era nado. Esperámos algum tempo até que ele chegou. Não sei de onde vinha, possivelmente da Covilhã ou Fundão. Poucas pessoas havia e, mesmo a cidade, estava ainda quase adormecida.

Chegado o autocarro e, enquanto a minha mulher se instalava, reparei numa moçoila que vinha do lado da janela. Era muito engraçada: de braços roliços e as faces faziam inveja a uma maçã camoesa.
Não me contive e atirei: olá princesa! Ela sorriu e num cândido desrespeito completo pela gramática, respondeu:  quem me dera que o sêsse! E eu, para não destoar daquele cândido desrespeito por tudo o que concerne à língua pátria, animei:  pode ser que um dia o venha a fôra.

O autocarro começou a rodar fiz adeus à minha mulher e sorri para aquele diamante a precisar de ser lapidado.
Já de regresso a casa o sol sorriu, vendo-me sorrir também. Seria um sorriso cúmplice?

CONDE DA GARDUNHA                                                                                          

quinta-feira, 18 de julho de 2013

IDA DO RICKY AO VETERINÁRIO

IDA DO RICKY AO VETERINÁRIO

Hoje, eu, a minha mulher, a minha neta, o meu cunhado e o Ricky meu companheiro fiel, fomos em excursão à cidade. A cidade, como já devem saber é o FundãoO motivo principal e exclusivo foi a consulta e vacinação do Ricky.
Fomos todos, para lhe mostrarmos a nossa solidariedade e transmitirmos o nosso sentimento de pura amizade.
Foi auscultado, medida a temperatura e apalpado desde o pescoço às partes mais íntimas e, tudo isto, feito por uma jovem linda e gentil veterinária.
Enquanto decorria a consulta pensava para com os meus botões: Este fulano tem um tratamento VIP em relação a mim quando me sirvo do Serviço Nacional de Saúde. Ora, tenho uma médica que veio da Argentina que fala num espanhol arrevesado que quando se me dirige peço sempre bis para que a possa entender porque à primeira não percebo a ponta de um corno e mesmo à segunda é entendível sofrivelmente; tem um carão e um corpanzil que me faz lembrar os vaqueiros da terra dela a galopar pelas pampas a laçar reses; foi ao cardápio e arranjou-me uma doença imaginária e que doença que me infernizou a alma durante dias e, pior do que tudo, nunca me apalpou o pescoço quanto mais o resto.
Mas, voltando à consulta do Ricky:
As vacinas que lhe deram para além da desparasitação foram a da esgana e da raiva. Ele estava na maior e até teve direito a uns biscoitos. O pior foi quando a impressora cuspiu o papel com a respectiva conta. Aí fiquei logo com esgana e pus-me logo ao fresco antes que a gentil veterinária vislumbrasse a raiva no meu olhar e viesse ameaçadora com a seringa com o respectivo antídoto.

CONDE DA GARDUNHA

São Fiel, 18 de Julho de 2013

quinta-feira, 11 de julho de 2013

UM LINDO AMOR

UM LINDO AMOR

Tenho um amor extraconjugal. Tenho a certeza que é uma paixão para a vida e, o mais curioso, é que não sinto qualquer espécie de remorso.
Fiquei enleado, enredado, preso numa teia qual insecto descuidado, desde a altura em que a vi pela primeira vez. Quem não acredita no amor à primeira vista?
O meu amor é lindo de morrer; tem uma graça natural, um olhar que cativa que vem de uns olhos esparsos, boca bem delineada que sorri ou se abre num riso aberto e franco e, os seus beijos doces deixam-me feliz: põem-me de bem com os homens e com o mundo. Têm o condão de me fazerem esquecer o que de pior tem a vida. Quando me abraça é como chegasse a um oásis depois de ter percorrido a aridez de um deserto.
E, o mais gratificante é que este meu amor é correspondido. Amamo-nos mutuamente há já mais de seis anos e nunca entre nós houve mal entendidos como é habitual entre casais. Nunca houve lugar para ciúmes, o amor está acima desse sentimento egoísta.
Mas… ─ perguntarão quem me lê─ porque raio é que este fulano está a desvendar publicamente o que deveria esconder? É que eu não poderia esconder por mais tempo este segredo sublime. O amor não se deve esconder, antes pelo contrário, deve ser cantado e gritado aos ventos.
Só mais uma inconfidência, a graça deste amor, chama-se Leonor… a minha neta.

CONDE DA GARDUNHA

quarta-feira, 6 de março de 2013

BAILE MANDADO (NO ESTILO DO BAILE ALGARVIO)

BAILE MANDADO (NO ESTILO DO BAILE ALGARVIO)

Esta roda está parada
Por falta de mandadores
A malta anda marafada
Por causa de uns amadores.

Vai de roda, vai de roda,

Cada um com o seu par
À frente da gente toda
Vai o Pedro e o Gaspar.

Atrás o Paulo e a Cristas,

O Relvas que é uma treta,
Só servem para dar nas vistas
Vamos todos pró maneta.

Ceeeeerto!

Preparar, preparar…
Palminhas mãos ao ar.
Palminhas terminaram
E muitos se enganaram.

O Zé anda desvairado

Com esta governação
E só lhe resta o cajado
Pra zurzir na corrupção.

O Euro leva sumiço

Escorrega-nos da mão.
Não há Euro pró chouriço
E nem sequer para o pão.

Ceeeeerto!

Preparar, preparar…
Palminhas mãos ao ar.
Palminhas terminaram
E muitos se enganaram.

Sumiu-se a Rosa tirana

Com jeitos de q’rer voltar.
Seguro é uma tisana
E o povo tem que o travar.

Por mal dos nossos pecados

Veio depois a Laranja
Vislumbres de anos dourados
Que deu em azeda canja.

Só falta vir o vermelho,

Para o ramo realçar,
Mas está velho e relho
E nada tem para dar.

Ceeeeerto!

Preparar, preparar...
Palminhas mãos ao ar.
Palminhas terminaram
E muitos se enganaram.

Esta coisa já não vai

com grevistas e canções
A governança só cai,
Se bradarmos aos canhões.

Já não há cor que nos valha,

Neste corrupto Paul
Talvez fosse boa "malha",
Hastearmos o branco e azul.

Ceeeeerto!

Preparar, preparar...
Palminhas mãos ao ar.
Palminhas acabou
E este baile terminou.




CONDE DA GARDUNHA



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS - O SENHOR (...)

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS

O SENHOR ( …) 

O senhor (…) era naquela altura, um dândi, bem afiambrado, muito bem arrumadinho, bem-apessoado e até com características de galã. Morava fora da urbe junto a um vale e perto de uma ribeira por onde as águas cristalinas no seu leito iam roçando-se lubricamente de pedra em pedra, até abraçarem as águas do seu irmão maior com o mesmo nome.
Nas tardes de Verão, o senhor (…) subia ao povoado, para conviver com dois amigos dilectos que se passeavam estrada fora cultivando e praticando a arte de mal dizer.
Em certa altura, a excelentíssima esposa do nosso protagonista, ausentou-se do lar por motivos absolutamente necessários.
Como a demora se prolongava, o “pinto” do senhor (…) começou a ficar desassossegado, clamando por paz.
Na urbe, havia uma mulher que era a mulher da gente. Mulher divertida e como boa minhota, usava sempre um lenço de merino com motivos coloridos que lhe cobria o penteado. Foi esta mulher que o senhor (…), o tal que não dava confiança a todos, procurou, para pazear o seu “pinto” que o infernizava.
O encontro aconteceu na casa da apaziguadora dos instintos mais primários, para quem a procurasse. O “pinto” do tal senhor estava mais que pronto para a diversão. O senhor (…) em cima da mulher malhava, e tanto o fez, que provocou nela grande flatulência. Ora, sabemos que gerada uma flatulência tem por força fisiológica, de sair por algum lado e, saía precisamente pelo sítio que os meus leitores calculam. A cada barrigada lá saía um flato longo e ruidoso; ela ria satisfeita e, ele desconcentrava-se. Digamos em abono da verdade que nada é menos elegante e menos sensual, capaz até de amolecer o “pinto mais erecto” do que uma situação destas.
O senhor (…) continuava a pedalar e ela flatulenta, ria a bom rir e, ele desconcentrava-se naquele vai-vem.  As vezes foram tantas que o dono do “pinto” esfomeado soergueu-se e fez o ultimato: ─ Ou tomas conta do serviço ou levas um murro nessa cara.
O depois, já não sei como terminou. Este foi o relato que chegou até mim e que agora revelo. Todavia, penso que o “pinto” do senhor (…) jamais  reclamara enquanto o seu dono se lembrasse de tal aventura.
Nota: Não revelo o nome do senhor, protagonista desta história, por se tratar de uma pequenina
infidelidade. E, já agora, um aviso às senhoras: não deixem os vossos maridos sozinhos por muito
tempo, não vá o diabo tece-las só por causa de um “pinto” reclamante.

CONDE DA GARDUNHA