REBIMBA O MALHO

REBIMBA O MALHO

domingo, 14 de outubro de 2012

A LINGUA LAMBE (SEXO ORAL)


A LÍNGUA LAMBE (SEXO ORAL)


Carlos Drumond de Andrade, poeta maior, era adepto e escreveu um
belo poema sobre o tema:

A LÍNGUA LAMBE

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos


E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfure
cidos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

ARTIGO RETIRADO DA REVISTA "DOMINGO" DO JORNAL "CORREIO DA MANHÃ"

ARTIGO RETIRADO DA REVISTA "DOMINGO" DO CORREIO DA MANHÃ

JORNAL RUSSO TRAÇA PERFIL DO "MAIOR PORTUGUÊS" E APONTA-O COMO EXEMPLO

Em tempos de crise Salazar ainda traz saudade?
English. pravda.ru " DURANTE OS SEUS ANOS DE PODER, A ECONOMIA CRESCEU"

A crise portuguesa vista da Rússia tem uma solução: Ditadura. Que é como quem diz, no tempo de Salazar é que era bom! Foi esta a abordagem do tema num artigo com honras de página de abertura terça-feira no site do Pravda. Aí se lembra que Salazar foi em 2007 eleito o maior português de sempre, "derrotando o comunista Álvaro Cunhal [sic] com grande vantagem". E a cronista, Liuba Lul'ko, refere que "durante os seus 40 anos de poder a economia de Portugal cresceu: O PIB no início dos anos 70 era de 7% ao ano". E pergunta: "Por que razão a economia portuguesa não está agora nas melhores condições?" Difícil responder, dir-se-ia, mas Lul'ko arrisca: "Talvez o segredo resida nas qualidades pessoais dos políticos". E que qualidade são essas? "Antes de mais, "não trabalhar para os americanos ou para os alemães é importante". E o elogio, feito "sem negar os horrores de um regime totalitário", termina em beleza: " Sei o que quero e para onde vou", disse Salazar quando se tornou ministro das Finanças em 1928. Isso não é algo que pudesse dizer-se dos políticos portugueses modernos".

CONDE DA GARDUNHA

terça-feira, 4 de setembro de 2012

CINZAS


CINZAS
ARTIGO DE FERNANDO SERRA PUBLICADO NO JORNAL “ POVO DA BEIRA"

Quanto mais flagelado um país, maiores as torturas infligidas. Duas horas da tarde. Trinta e nove graus centígrados. Agosto. Céu muito azul, mas só por cima. A linha do horizonte expande uma névoa que a ilusão atira para manhãs imersas em ondas de sal. Mas o mar fica muito longe. Trezentos quilómetros reduzem-nos à realidade das sufocações e da prostração. Progressivamente o céu azul deixa de o ser, e a névoa, cada vez mais densa, difunde-se e o sol que era há pouco luminoso e límpido é agora marralheiro e turvo.
Subitamente acordamos da virtualidade e afundamo-nos no desespero do realismo fatal. Na crista da serra perfilam-se colunas espessas de fumo negro. Não tarda que os sentidos reajam ao cheiro insidioso a natureza queimada. O ruído de uma máquina voadora aguça presságios. Leva suspenso um gigantesco balde com água como a cegonha transporta o bebé das nossas ilusões pueris. Mas aqui, em lugar de nascer, mata-se. Os sanguinários da floresta rebentam todos os anos em cogumelos cada vez mais venenosos e perversos. São eles os protagonistas da vergonha, são eles os algozes de um país cada vez mais diluído na aridez e na inércia da resignação.
Já se ouve o grito sufocante das sirenes que, não tarda, roçarão os nossos sentidos em promessas de salvamento e solidariedade. Trazem homens pendurados, armados de machados que tentarão desenterrar refrigérios para infernos que seres menores atearam. Ao ruído da sua passagem eleva-se a vozearia rude da sueca na esplanada da tasca mosqueirenta e lúgubre.
Cubro com a manilha. E já ganhámos, parceiro! Mais uma rodada, ó Manecas!
Onde é que é isto hoje? Em Casegas? Porra, que é todos os anos a mesma merda…!
É aquele a embaralhar.
Filhos da p…, que mergulhavam todos o focinho na fogueira. Ah, carago, se eu mandasse…
É aquele a dar.
Trunfo é paus.
Os que já arderam, ou os que vão arder a seguir?
Deixa-te de porras e joga, que já ganhámos outra vez…
Não brinques com coisas sérias, Tomás.
Não brinques? O que é que falta queimar? Onde estão os gajos que mandam? Agarraram o “Bexigas Doidas”, o ano passado, e já aí anda outra vez, de isqueiro no bolso. E todos sabemos que não fuma. Sabes que mais? Porque é que não acabam de vez com esta palhaçada? Cá por mim, pode arder o resto, já hoje. Pinhais e quintas para defender é coisa que nunca tive. Esses que se preocupem…
Quando o cepticismo e a indiferença passam ao lado da tragédia, e o instinto de reagir é embotado pela letargia do discernimento, nada mais conta que a acomodação e a placidez. Tudo o resto são reminiscências atávicas consolidadas na iliteracia cultural de um povo atolado em depressões recorrentes.
Agora é uma ambulância que aparece e desaparece na vertigem de fugas e prioridades. Sumiu-se na última curva da estrada que as alternativas governamentais farão derivar para aceiros envergonhados, ladeados de lixo florestal por limpar.
E a natureza arde. A cumprir ciclicamente um mandato de morte anunciado. Mas eles estão lá. Farão o que puderem. Homens e mulheres na defesa, quantas vezes, de quem os maltrata. O cego mais cego é o que não quer ver. Meu Deus, e tanto cego por aí!
Sufoca-se. O vento auxiliador da desgraça arrasta consigo vagas de fumo cada vez mais negras e opacas. Cheira a fogueira de São João calendarizado não há muito. O dia que amanheceu luminoso, prenunciador de sossegos e calmarias, alguém o transformou num inferno de sobressaltos e angústias por resolver.
Alto de Silvares. As janelas abertas do automóvel deixam cair sobre o papel partículas de uma natureza a agonizar. Quisera juntá-las e devolve-las à consciência delinquente dos psicopatas que se movimentam impunes a uma justiça inerte e bafienta. A impunidade é a minha revolta e a abstracção a minha incapacidade de agir. Sendo assim, rodo a chave e arranco.
A noite chegou mais cedo ao acrescentar os seus negrumes ao céu de Inglaterra que se abateu, espesso e parado. Cisternas de bombeiros percorrem barragens, charcas e piscinas na busca autorizada do único elemento da natureza capaz de neutralizar com eficácia a fúria de um outro, seu irmão, aquele que mais depressa tudo reduz a átomos o fogo. É uma luta fratricida, mas decretada por emergência que a aflição impõe.
Duas da madrugada. As labaredas que o dia esconde são as mesmas que de noite mostram cristas aterradoras, cada vez mais próximas do que ainda está por arder. O lugar é comum, mas o cenário é, de facto, dantesco e a luta, injustamente desigual. Mas eles continuam lá. Desistir não é o lema. “Vida por vida”. Até à exaustão. Até caírem para o lado.
Ninguém dorme. Como dormir com o inferno à porta? Estendem-se mangueiras e molham-se quintais. A lua, quase cheia, pouco ajuda, incapaz de romper a impenetrável massa de fumo. As forças minguam, tal com o vento parece ter amainado. Milagre? Pode ser. O turbilhão de chamas recrudesceu. Como a fera do circo a recuar, cobarde, ao som do chicote do domador.
Daqui a pouco é novo dia. Amanhã romperá vestida de cinzas poisadas em chãos fumegantes. Os primeiros alvores trazem recados pungentes de dor e desolação. A tragédia abatera-se sobre quem toda a vida fora abnegado e justo. Cortes e pardieiros irremediavelmente perdidos. Porcos a engordar até ao ano que vem, complemento bom de uma subsistência magra, jazem carbonizados. Hortas e vinhedos que, por caprichos e necessidades eram o orgulho de quem com sacrifício os amanhava e amava, o lume os devastaram completamente. Cerejeiras e pessegueiros onde melros e toutinegras ainda ontem trinavam hinos à natureza, morreram (de pé!), de cotos apontados a clamar justiça. De duas casas de habitação, restaram as paredes, e num quintal a carcaça de um carro velho e os aros das rodas de uma carroça antiga. A casa de amarelo pertencia a um modesto emigrante a compor a vida em França, porque a terra que o viu nascer tudo lhe negou até aos trinta e cinco anos. Não resistiu à derrocada emocional. Cometeu o suicídio, soube-se depois. Num bilhete que deixou escrito pedia para ser enterrado no país que o acolheu. Nem na morte quis regressar.
Não passaram muitas horas para que os jornais e as televisões abrissem com a fotografia de um jovem de vinte e nove anos de idade. A farda de bombeiro e o olhar intrépido fixado em auroras prometidas identificavam uma vida que acabava de soçobrar à insanidade de espécimenes que de humanos têm apenas a forma anatómica e nenhuma lei teve ainda a coragem de extinguir de vez.
Em tudo quanto foi terra de gasómetro e silicose a atmosfera continua de cinzas e o sol, vestido de luto. As mulheres redobram o preto e choram em grupos de corvos. Os homens, acocorados sob um castanheiro velho, de ouriços a abrir, gastam cigarros em baforadas de raivas e impotências por resolver há muitos, muitos anos. Os cães, seres extraordinários que tudo pressentem e entendem competem em latidos lúgubres com o ronco de um helicóptero em manobras de reconhecimento.
Por entre silêncios e diálogos surdos a tarde avança, pesada. Com ela recuam sonhos e projectos para longes sem regressos. Os velhos já nada pedem à vida, e os novos são aparições acidentais e fugidias.
Ao cair da noite, suspensa das traves de uma adega escura onde repousa o vinho acidulado e fresco uma corda grossa balanceava o corpo ainda quente de um homem de cabelo grisalho e barba por desfazer.
Ontem, à sueca, ele não tinha herdades nem pinhais para guardar. Agora, de olhos esbugalhados e vidrados no vazio, embala um filho morto, muito vivo além, porque apenas transpôs o território onde campeia a imperfeição humana.
Dos dois só a memória dele perdurará.

Fernando Serra



PORTUGAL ESTÁ EM CHAMAS. TODOS OS ANOS ARDE MAIS UM POUCO. SOLUÇÕES PARA INVERTER A SITUAÇÃO NÃO SÃO TOMADAS A SÉRIO. CULPADOS? SIM HÁ-OS E MUITOS. PUNIÇÕES? ESSAS FAZEM-NOS CORAR DE VERGONHA. E, POR ESSA VERGONHA QUE NOS RUBORIZA PELA SUA INEFICÁCIA LÁ VAI... REBIMBA O MALHO

CONDE DA GARDUNHA 

domingo, 27 de maio de 2012

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS - O SENHOR VENTURA

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS

O SENHOR VENTURA

Do senhor Ventura, ninguém ou muito poucos se lembrarão. O senhor Ventura foi, penso eu, o primeiro encarregado do armazém de víveres na Panasqueira.
Quando o conheci com quatro ou cinco anos, já ele era um homem de idade avançada. Lembro-me da casa onde vivia e do dia do seu falecimento.
Era uma pessoa bem-humorada sempre com um dichote na ponta da língua no momento certo.
Certo dia, uma moça serviçal de um engenheiro foi ao armazém e, com ar desenvolto, disse ao senhor Ventura que a senhora a tinha mandado comprar um chouriço. Este, olhando-a por cima dos óculos de aros de tartaruga, respondeu: - Pois menina, hoje chouriço, só atado de uma banda.
A rapariguinha desandou sem sabermos se entendeu o que tinha acabado de ouvir.
No dia seguinte, apareceu o engenheiro com um ar circunspecto  chamou o senhor Ventura de parte e começou por lhe dizer: - O senhor com essa idade vai dizer uma coisa dessas à minha criada? Ao que o senhor Ventura respondeu com um ar muito sério: - Saiba o senhor engenheiro que ontem, chouriço, só mesmo desse. Do outro, chegou hoje se ainda for necessário, pode mandar vir cá a sua criada.
Sabe-se que foi o engenheiro que o levou mas, desta vez, um chouriço atado nas duas bandas.

Conde da Gardunha

quarta-feira, 23 de maio de 2012

RECORDANDO FACTOS E PESSOAS - O SENHOR SILVA


RECORDANDO FACTOS E PESSOAS

O SENHOR SILVA                                                                                                 

O senhor Silva era o chefe da Acção Social na Panasqueira.
O senhor Silva tinha uma figura distinta, muito educado, bom falador, já com muitos cabelos brancos e vestia sempre fato completo. O lenço alvo a espreitar no bolso superior do casaco, dava-lhe um ar aristocrático.
Ora, como todos os comuns mortais, também o senhor Silva tinha necessidade de vez em quando fazer uma visita ao barbeiro - era assim que se chamava naquele tempo, ao homem que tratava de rapar a fuça e cortar a gaforina -.
O barbeiro em função era o ti Zé Manteigas, um homem bom, de sorriso fácil e que não se escamava por dá aquela palha. Porém, sofria de uma tossezita persistente e irritante que provavelmente só a tumba lha tirou.
O senhor Silva estava sentado na cadeira e o ti Zé Manteigas a cortar-lhe as repas excedentes mas, sempre a tossicar para o pescoço do chefe da Acção Social. e, tantas foram as vezes que este muito incomodado se volta para trás e diz ao "Fígaro" - ... e se você fosse cagar isso não lhe passava? .
Coitado do ti Zé Manteigas, ele bem sorriu, mas foi talvez o sorriso mais amarelo que ele esboçou na sua vida.

Conde da Gardunha.
                                                                                                     

segunda-feira, 14 de maio de 2012

AO QUE CHEGÁMOS

AO QUE CHEGÁMOS

                                             
        No jornal que leio diariamente desde há longos anos, vi uma notícia que me deixou atónito, deixou-me incrédulo que a não ser pela gravidade em causa, seria no mínimo motivo para gargalhada estridente
        O título diz tudo e, rezava assim: - “Professores do norte têm aulas de artes marciais para se defenderem dos alunos.
        No mesmo jornal mas em data diferente anunciava que as armas nas escolas são mais que muitas.
Ao que chegámos!
        É no mínimo patético para quem, como eu, teve a sorte de ser ensinado muito antes da Abrilada. Naquele tempo, não havia energumenozinhos mimados, com a veleidade de desestabilizar uma aula. Naquele tempo, como havia professores que se davam ao respeito, também havia pais que sabiam dar uma chapada no filho sempre que este a merecia. Era uma consonância perfeita entre professor e pai para bem do adolescente. Naquele tempo, os pais não iam pedir satisfações aos professores pelo mau aproveitamento dos seus rebentos. Quando estes perdiam o ano, os pais sabiam como agir que depois de reprimendas sucessivas vinham por via de regra os respetivos castigos.
        Na escola, é fundamental que haja respeito pelo professor porque não havendo, propicía desmandos como a falta de respeito ou a rebeldia até para com os seus companheiros. Não sei como nem porquê em deixarem os putos tratarem por “ó professor” omitindo o Srº. É claro que todos estes pormenores podem contribuir para uma demasiada intimidade que quanto a mim é prejudicial. Manter uma certa distanciação é saudável, põe em evidência uma hierarquia que deve ser respeitada e o aluno desde logo se apercebe disso.
        Por outro lado, há muitos pais que se demitiram da educação dos seus petizes delegando no professor, também essa incumbência. Ora, a vocação do professor, não é educar mas instruir que foi para isso que estudaram e fizeram o seu curso. Não tiraram das escolas a disciplina de moral? Então? Seria bom que alguém do governo tivesse a coragem em substituir o nome de Ministério da Educação por Ministério da Instrução ou por Ministério do ensino. Assim, evitavam-se confusões e repunha-se o verdadeiro nome para o qual está dirigido.
        A escola de hoje peca por falta de disciplina. Quando andei na instrução primária, os professores tinham as quatro classes com dezenas de alunos na mesma sala. A disciplina permitia ouvir os aparos arranharem nas folhas do caderno, ou o ponteiro a riscar nas ardósias. Havia castigos corporais? Claro que sim! Uma palmatoada por cada erro ortográfico ou quando o professor dava conta, uma canada naquele aluno que cochichasse com o companheiro. Houve traumas por isso? Não sei de ninguém que tivesse sofrido dessa maleita hoje em dia tão em voga. Ninguém necessitou de psicólogos nem se ouvia falar destes senhores que quanto a mim estão mais perto da doença do que da cura.
        E o que dizer dos chamados hiperactivos? Não existiam simplesmente e, se alguém tivesse essa tendência, era aplicada a psicologia vigente e lá se ia a hiperatividade.
        O proteccionismo exagerado, é nefasto para aqueles que começam um novo ciclo da sua vida, neste caso a aprendizagem das primeiras letras.
        Hei-de voltar a este tema numa outra crónica.
        E, pelo estado vergonhoso que deixaram chegar as escolas deste país, como não podia deixar de ser... REBIMBA O MALHO!


Conde da Gardunha



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

OS REIS MAGOS

OS REIS MAGOS
    
    Pensa-se que os três Rei Magos fossem sábios astrólogos e considerados Reis por serem muito poderosos e terem oferecido a Jesus presentes magníficos: ouro para honrar o Menino como Rei; incenso para o reconhecer como Deus e mirra para significar que Ele era homem verdadeiro.
     Estes magos chamaram-se:
GASPAR que significa o que vai com amor
MELCHIOR o que anda com suavidade e guia usando a mansidão
BALTAZAR o que obedece prontamente sem discutir a vontade de Deus
     O Evangelho ensina que vieram do Oriente guiados por uma estrela diferente de todas as outras e, ao seguirem-na, chegaram ao presépio onde ajoelharam e adoraram o Salvador.
     Existem muitas tradições para se comemorar o dia de Reis como ter a romã à nossa mesa e que deve ser comida tendo ouro numa das mãos. Deve-se guardar sete bagos durante todo o ano para que à família na falte dinheiro. É uma tradição não muito usual entre nós embora muito antiga noutras paragens.
     Outro costume também já antigo, calcule-se do tempo dos Reis Magos. Estes quando chegaram perto do presépio tiveram um problema: qual deles faria em primeiro lugar a oferta ao Menino? Valeu-lhes um artífice que se prontificou a confeccionar um bolo que teria a forma redonda com uma abertura no centro e enfeitado com frutos secos e cristalizados de maneira que desse a impressão serem pedras preciosas encastoadas como de uma coroa real se tratasse. Todavia, no interior colocaria uma fava. Partido e distribuído, iria em primeiro lugar aquele que fosse contemplado com ela. Não nos diz a lenda qual deles teve esse privilégio. O caso espalhou-se e foram os pasteleiros os responsáveis pela sua divulgação.
     Noutros quadrantes, outros usos existem como em Macau que nessa data respira-se um ar de festa durante vários dias e em casa alguma faltam as tangerinas quer em pratos, quer penduradas em pequenas tangerineiras envasadas visto serem consideradas o símbolo da riqueza eda prosperidade.
     Em Espanha, a festa dos Reis Magos é uma das mais importantes das festas do Natal. São os Reis que trazem os presentes para as crianças por isso, elas deixam à noite nas varandas ou janelas, cestos para as recolherem. Mais vale assim, do que acreditarem no pai natal.

CONDE DA GARDUNHA        


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O NATAL - CONTINUAÇÃO (AS JANEIRAS)

O NATAL - CONTINUAÇÃO (AS JANEIRAS)
As janeiras como o nome indica, são cantigas de Boas Festas por ocasião do Ano Novo também chamado Ano Bom e por conseguinte cantadas em Janeiro.
Talvez assim acontecesse ou ainda aconteça em muitas terras. Porém, onde me criei, as coisas não se passavam bem assim. As janeiras vinham muito antes, logo que o calendário perdia a folhinha do Novembro, eis que os janeireiros da minha infância, aí estavam. Eram grupos de rapazes que percorriam o lugar com suas cantigas de adular embora falando sempre do nascimento do Menino.
Enfrentavam heroicamente umas vezes o vento nordestino que impiedosamente açoitava aquela serrania assobiando lugubremente por aquelas escarpas, ou as chuvas álgidas tocadas por rajadas que encharcavam até aos ossos qualquer cristão, ou ainda, a neve que de mansinho caía lentamente cobrindo de branco aqueles caminhos sinuosos e alcantilados. Foi com razão que empreguei - heroicamente – porque na verdade, era bravo o clima por aquelas terras do fim do mundo.
Estes rapazes de rija têmpera, não vergavam por maior que fosse a borrasca. As suas vozes lá longe, ouviam-se ora mais nítidas ora mais sumidas, consoante o vento as trazia ou as levava.
Gostava deles e é com imensa saudade que os recordo. Só uma vez ouvi o “Talinca Martelos” como lá se dizia. Foi dedicado a um vizinho que tinha por hábito deixar os rapazes cantarem e recantarem sem que lhes desse a devida recompensa. Foi numa dessas noites que ouvi então:

Talinca martelos
E torna a talincar
Este barbas de chibo
Não tem nada pra nos dar.

Terminado este mimo, eis que eles aí vão numa abalada desordenada porque nunca se sabe qual a reacção de um recém-promovido a “Barbas de Chibo".   Rara era a noite que pela nossa porta não passassem dois ou três destes grupos. Assim que ouvíamos a voz do solista sabíamos logo de quem se tratava. O melhor era o Manel Serrão, aliás, todos os irmãos tinham muito jeito para as cantorias, salvo o Zé que era surdo-mudo. Mesmo assim, não obstou que numa dessas noites, na sua voz gutural louvasse o Menino Jesus juntamente com outros.

O Manel Serrão começava:
                                           “Inda” agora aqui cheguei
                                           Pus o pé nesta escada
                                           Logo o meu coração disse:
                                           Aqui mora gente honrada.

O refrão era atacado por todos:

                                           Aquela lapinha
                                           Coberta bem c’um véu
                                           A Virgem bem guardada
                                           P’los Anjos do Céu
                                           Ó Anjos do Céu
                                           Que tão bem cantais
                                           Cantai ao Menino
                                           Bendito sejais!
Continuava o Serrão:

                                           Viva lá senhor ……..
                                           Raminho de salsa crua
                                           Quando vai pró trabalho
                                           Ilumina toda a rua.
Entra o coro:
                                           Aquela lapinha
                                           Coberta…………
Vem o Serrão:
                                           De quem é aquela bola
                                           Que ali está no corredor
                                           É do menino…………
                                           Que é um grande jogador
Novamente o coro:
                                           Aquela lapinha
                                           Coberta………….
Continua o Serrão:
                                           De quem é aquele livro                                
                                           Que ali está naquela estante 
                                           É do menino…………..
                                           Que é um bom estudante.
Segue o coro:                                           
                                           Aquela lapinha  
                                           Coberta………….
Arremata o Serrão:                                           
                                           Levante-se lá minha senhora  
                                           Desse banquinho de prata  
                                           Venha dar-nos as janeiras  
                                           Q’está um frio que mata.
           
Terminada a cantiga, abria-se a porta de casa e eram gratificados com dinheiro ou com outros mimos que antes dos agradecimentos eram guardados zelosamente.

CONDE DA GARDUNHA


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O NATAL

O NATAL



(EXCERTO EXTRAÍDO DE UM OPÚSCULO QUE ESCREVI HÁ MUITO)


O Madeiro ou Tronco também assim chamado, é trazido pelo rapazio num carro puxado por uma junta de bovídeos. Também aqui houve já uma mudança graças à evolução. Hoje os pachorrentos e simpáticos animais, foram substituídos pelo tractor que com o seu atrelado lá chega ao adro da igreja com menos demora mas, também com menos poesia.
A tradição manda que o tronco seja roubado e que se o dono tiver alguma desconfiança, finja que nada sabe e facilite a vida aos rapazes que se preparam para lhe subtrair algo que servirá para aquecer aquela noite que também por tradição deve ser fria de bater o tarau e o ambiente ficará completo, se alguns farrapos de neve esvoaçarem no espaço. Deus dê muita saúde e vida a quem já teve esse privilégio.
Muito antes da meia-noite, já as pessoas começam a abandonar os seus lares com destino ao adro da igreja onde se encontra o madeiro. Vêm encapotadas, golas bem puxadas para cima enquanto as boinas ou chapéus bem chegados para as orelhas. As mãos, quando não estão bem no fundo dos bolsos, friccionam-se uma na outra ou bafejam-se para que os dedos não fiquem encaramelados. Os narizes por via de regra, estão vermelhos devido ao ar gélido que os fustiga. O pingo que teima em aparecer, logo desaparece numa fungadela e então é o aparece e desaparece até que, acaba por morrer nas costas da mão.
O povo vai chegando e vai ficando em redor do madeiro já esbraseado. O adro está enrubescido pelas línguas de fogo que numa dança voluptuosa, vão lambendo como a querer acariciar e, aos poucos, vão tomando posse do madeiro.
Enquanto os olhares estão presos naquele bailar das chamas acompanhadas de vez em quando de miríades de faúlhas, esticam-se os braços e aquecem-se as mãos ao mesmo tempo que batem os pés no lajedo ou no chão térreo.
Depois vem a dança da garrafa da aguardente que rodopia de mão em mão, ou para melhor dizer, de boca em boca e, no final de cada emborcação, segue-se sempre um aaahhhh!!!!  ou um estalido com a língua que ela é da rija.
Os corpos vão estando com boa temperatura tanto por dentro como por fora. As conversas animam-se, a risada fácil aparece e não tarda que alguém comece a cantar bem alto loas ao Deus Menino, logo seguido por todos    
                 
                 Alegrem-se os Céus e a terra
                 Cantemos com alegria
                 Já nasceu o Deus Menino
                 Filho da Virgem Maria

                 Ó meu Menino Jesus                
                 Ó meu menino tão belo          
                 Logo vieste nascer
                 Na noite do caramelo.                   

Entretanto a meia-noite chegou e o sino da igreja faz o convite para a Santa Missa, chamada a Missa do Galo, que a maior parte das pessoas se apressam a participar.
Gostei sempre de estar presente nessa Missa talvez por ser celebrada àquela hora ou simplesmente pela magia daquela noite.
A Missa do Galo era fértil em peripécias, era mesmo difícil conter o riso em certos momentos. Não eram cenas maldosas nem carecidas de respeito, se elas aconteciam, a culpa era da alegria contida nos corações estimulada porventura pela bebida ingerida à volta da fogueira. Contudo, se havia alguém mais sisudo e fizesse o respectivo reparo, imediatamente o prevaricador afivelava o rosto com o ar mais seráfico possível o que dava azo a uma maior vontade de rir.
Do que estava sempre à espera, era dos cânticos em louvor ao Menino. Enquanto as fieis devotas chegavam ao fim do cântico em tempo devido, outros fiéis devotos iam ainda aí pelo meio. O hino saía numa cadência lenta embalado em hálitos etílicos e o resto do pessoal, pacientemente, esperava que a última voz penosamente chegasse ao final.
O que de facto tinha maior relevância era que todos louvavam e festejavam o nascimento de Jesus, fosse em compasso binário ou quaternário.
Nesta Missa por hábito, dá-se a beijar a imagem de Jesus e eu, menino de Capela-mor, ia observando todo aquele cerimonial. Os fiéis subiam pela coxia central e desciam pelas laterais. Enquanto uns beijavam a uns centímetros da imagem, havia no entanto outros principalmente os mais idosos que de lábios arrepanhados pela ausência dos dentes, beijavam ali mesmo, de chapa, aquele corpinho róseo que era um regalo. Saía um beijo sonoro como a quererem mostrar ao Redentor o quanto gostavam Dele.
Depois de ouvida a missa, agrupavam-se de novo em redor do brasido em franco e alegre convívio.
Na maioria dos lares a ceia estava à espera. Era a consoada. Importava pois fazer jus ao trabalho das mulheres que não se poupavam em confeccionar os pitéus tradicionais desta festa.


(CONTINUA)


CONDE DA GARDUNHA          

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

APAIXONADO POR UM OLHAR

APAIXONADO POR UM OLHAR
       
Todos os Sábados e durante anos fazia um percurso que me dava imenso prazer.
Depois de tomar o pequeno-almoço na Brasileira no Chiado, fazia uma ronda pelas livrarias. Visitava primeiro a Sá da Costa onde me extasiava com a profusão de livros empilhados em enormes mesas bem como nas vastas prateleiras. Depois de me inteirar das novidades, seguia para a Bertrand, Aqui, detinha-me mais um pouco por via de um pequeno recanto onde estão uma mesa e duas cadeiras envolvidas por prateleiras contendo somente livros escritos por um senhor pelo qual tenho uma particular simpatia. Trata-se do Aquilino Ribeiro o homem da Grande Casa de Romarigães, Volfrâmio, Maria Benigna, Terras do Demo e de tantas outras obras que deliciam os amantes da boa leitura. Era neste recanto, que o escritor se sentava para ler ou simplesmente conversar com algum amigo que aparecesse.
Quase sempre roçava com os dedos as lombadas daquelas fiadas de livros como sinal de respeito e admiração.
Retomava a minha peregrinação descendo a Rua Garrett virando depois para a Rua do Carmo. Entrava na Portugal e, finalmente na Lello, onde permanecia mais tempo por virtude da amizade que me unia ao encarregado da livraria.
Porém, antes de transpor a porta, tinha como quase a obrigação de parar defronte a uma velhinha que encostada à parede e sentada no passeio estendia a sua mão trémula a quem passava. Por abrigo, tinha um xale preto pela cabeça que usava tanto no Verão como no Inverno.
Mas, é nesta estação do ano que os deserdados da sorte mais sofrem. Aquela velhinha apanhava a chuva por vezes gélida impelida pelo vento agreste que fazia tremer o mais agasalhado e, aquele ser frágil, no ocaso da vida, tendo só a cobri-la um frágil abafo que tantas vezes o vi ensopado. Tanto sacrifício, tão mal tratada, para no fim do dia, levar para casa umas escassas moedas.
Condoía-me aquele ser em particular e, todos os Sábados, dava-lhe com o maior prazer prazer uma nota previamente dobrada em quatro que lhe metia na mão esquálida. Nunca lhe ouvi uma palavra de agradecimento nem disso estava à espera. Agradecia-me de outra forma: levantando para mim os seus olhos lindos cor do céu e olhavam-me tão meigos e tão ternos que o agradecido era eu. Retribuía-me em dobro.
Gostava muito da minha velhinha de olhar doce que durante anos me habituara a receber dela a esmola daquele olhar.
Num Sábado de Verão, não a encontrei no seu lugar habitual. Estranhei muito a sua ausência sem que no entanto tivesse pensado o pior. Na vez seguinte, a pessoa do olhar meigo continuava ausente. Entrei na livraria e mal tinha pegado num livro, oiço nas minhas costas alguém chamando: - senhor! Quando me voltei vi um homem magro de cor macilenta mostrando querer falar comigo. A um empregado zeloso que vinha já pronto a evitar que eu fosse incomodado, fiz-lhe sinal para que não se intrometesse. Virei-me para o homem e perguntei o que desejava. Este ser visivelmente abatido com aspecto de doente, começou por falar de cabeça baixa e um pouco titubeante. - O senhor não me conhece, mas eu habituei-me a vê-lo todos os sábados a dar esmola à minha mãe. Também eu sou um pobre e pedia no passeio oposto. Prevendo o que tinha acontecido, mesmo assim, perguntei por ela. A resposta veio numa só palavra: morreu! Fiquei momentâneamente em silêncio. O homem prosseguiu: - Com a esmola que o senhor dava, servia para pagarmos a renda da nosso pobre casa e para mais alguma coisa. A minha mãe era muda mas soube dizer-me que era o senhor o seu bem-feitor. Um nó na garganta impedia que eu mantivesse o diálogo. A minha velhinha de olhar lindo era muda. Nunca o suspeitara.
Ainda mal recomposto, perguntei se não podia trabalhar. Baixou os olhos e confessou: - trabalhei na construção civil até que fui apanhado pela tuberculose. Estive internado num sanatório durante muito tempo. Quando saí, fui ao meu antigo trabalho mas não me aceitaram. Percorri tudo pedindo por favor que me dessem algo para fazer a fim de fazer face ao meu sustento e ao sustento da minha mãe mas, tudo foi em vão. A única coisa que me restava era pedir esmola e é o que faço.
Com o coração oprimido e cheio de raiva a esta sociedade ignóbil onde estamos inseridos, voltei-me ligeiramente de lado, dobrei a nota como fazia sempre com a mãe e ofereci-lha dizendo: - obrigado por me contar a vossa história. É uma história que me comoveu e mais, por nunca ter abandonado a sua mãe, pessoa que me prendeu desde o primeiro dia que a vi. Não sabia que era muda mas essa falta, era suprimida pelo seu lindo olhar que me fascinava. Em memória dela pode o meu amigo contar igualmente com o mesmo contributo para que de algum modo possa mitigar um pouco as suas carências.
Despediu-se de mim com os olhos marejados e um pouco à pressa como que envergonhado.
Dei graças por poder continuar a ajudar um ser que fora dado ao mundo por alguém que jamais esquecerei.
Já de regresso, sobraçando uma data de livros, ocorreu-me este pensamento: quem sabe se Deus não se serviu de mim, para minorar um pouco a pobreza destas suas duas criaturas. 

Conde da Gardunha



quinta-feira, 7 de julho de 2011

A MORTE FICOU-LHE A MATAR - (ÚLTIMO CAPÍTULO)

     A MORTE FICOU-LHE A MATAR - (ÚLTIMO CAPÍTULO)     
         
        Chegou o padre Manuel de sobrepeliz, estola roxa e, nas mãos, o livrinho das orações e o terço do rosário. O padre Manuel, homem alto e nédio vinha acolitado pelo Falhinho que levava presa numa das mãos a caldeirinha da água benta com o respectivo hissope e na outra mão a campainha presa pelo badalo não fosse ela tocar a destempo. O Falhinho de cabelo cor da seara pronta a ser segada, era um pobre rapaz que tinha por hábito de se servir da manga do casaco puído, para limpar as ventas mucosas. Na falta de mangas, usava a costa da mão que por sua vez ia direita à perna das calças.
         O padre Manuel aproximou-se e, parou aos pés da defunta. Depois de uma breve oração, ripou do hissope bem ensopado que o Falhinho atento lhe facilitou.
         - É a última auga que tchupas – disse o acólito. Mas, não foi assim. O padre no momento de aspergir, dá de caras com a felicidade da morta e, é com um solavanco, por querer reprimir o riso, que a água benta passa a rasar o corpo da menina Efigénia e vai pespegar-se na cabeça descabelada do Evaristo que estava sentado à cabeceira da falecida.
         Ora, o Evaristo, homem bilioso, tomou aquele desconchavo como uma afronta. Levantou-se impetuoso para ripostar mas, refreou-se quando viu estampada na cara do eclesiástico a aflição e um pedido de desculpas feito através de uma pequena vénia. Desta forma, deu-se por desafrontado. Sentou-se, puxou do lenço listrado e, ao mesmo tempo que enxugava a calva, ia murmurando: - Tiveste que te agatchar, filho de quatro nalgas.
         Sanado este incidente, os presentes aconchegaram-se para fazerem um lugarzinho para o senhor prior. O Falhinho colou-se à sua ilharga não largando por nada as suas alfaias.
         Iniciou-se a recitação do terço e, quando já iam dedilhadas quatro dezenas, apareceu a Maria Sem Pescoço uma das protegidas da que foi sempre menina. Não se incomodando com a toada da reza, disse em voz alta o que lhe ia na alma: - Atão menina Fgénia, deitxou-nos assim sem mais nem outra; coitadinha, tão boa, tão santa, era o que se pode chamar um anjo. Merecia inté que Nosso Senhor lhe tivesse posto umas asinhas presas nas costas.
         O Falhinho que tinha os olhos e ouvidos lampeiros, não se conteve. Com as fuças emolduradas por um sorriso alarve que deixava à mira duas dentolas intimadoras e capazes de traçar um bom naco de broa em menos de uma Avé Maria, ripostou: - As asas fetchou-as e entalou-as debaitcho do…
O Perna D’Aço que não era para brincadeiras e que ultimamente andava com os azeites por ter que usar um colete ortopédico a fim de lhe endireitar o espinhaço, evitou que saísse asneira. Estando atrás do Falhinho, sentenciou-lhe: - Cala-te cabrão! Se falas no cu da velha, arranco-te das patas a caldeira das benzeduras e dou-te com ela tantas vezes, até te ratchar esses cornos.
         O coitado do rapaz, de corado se fez verde passando pelo amarelo e, até a caldeirinha tremelicou.
         Mas, a Ti Rabeia das Virtudes que além de ser vendedeira, boa alma, e apaziguadora das excitações do rapazio do lugar, ouviu a reprimenda e advogou: - Parece impossível! Ora agora mai esta, ficava o rapaz, coitadinho, ratchado e mal pago, só por ter a alembrança de dizer onde a menina poderia ter as asas.
         O Perna D’Aço ia a ripostar se não fosse a pronta intervenção do padre Manuel que para isso deixou em meio um Pai Nosso: - Então, haja mais compostura, honremos e respeitemos quem partiu desta vida.
         Assim se pazearam os ânimos. O terço terminou e como era chegada a hora, começaram a preparar a menina Efigénia, para ser levada à última morada que distava uma meia hora em passo cadenciado.
         À porta, já esperavam três irmãos das almas com o respectivo estandarte. Eram eles o Colhouço que era o porta-estandarte, a ladearem-no segurando nos cordões estavam o Zé Panaita ainda arrimado à sua muleta e o Ti Manel João, tendeiro.
         Não haveria nada de peculiar nestas três personagens, se não tivessem em comum, o mesmo defeito físico: todos eles eram coxos mas, coxos a valer. O mais torto, o que mais se evidenciava, era o Ti Manel João que a cada passada ao apoiar-se na perna manca, dava mesmo a ideia que ia ruir.
         O cortejo fúnebre organizou-se: na vanguarda ia o Falhinho que fazia vibrar a sineta a cada pé de passada, ao mesmo tempo que pontapeava todo o seixo reboludo que estivesse ao alcance das suas botas de ver o sebo, brochadas e com a biqueira empinada a espreitar o Céu. Seguia-se-lhe o padre que orientava as orações durante o percurso. A irmandade depois e, antes dos acompanhantes, o féretro. Este, segundo o hábito naquela aldeia, era transportado numa carreta e o caixão ia destapado para que o povo pudesse pela última vez, ver a face do irmão que partira.
         O estandarte das almas, lá ia adejando numa louca tormenta sacudido impiedosamente pelos sacões descoordenados transmitidos pelos três chanquetas.
         Quem não despregava os olhos da bandeira, era o Rebola Caixotes que se destacava pela sua gaforina em remoinho e a carcela das calças por abotoar de onde assomava timidamente parte das ceroulas de flanela. Às tantas, não se conteve e vaticinou para o Redolho com um ar assacanado: - Cá para mim, aqueles cotchambetas dum catano, ainda fazem com que as almas se despeguem da bandeira e venham sacudidas por’i abaitcho afocinhando no tchão. Enquanto o Redolho ria a bom rir com o dichote pondo às escâncaras os dentes irregulares e que o tempo se encarregara de os forrar com uma cor fuliginosa. O Palpito, criatura possante e de farta trunfa, estava por perto e teve que dizer das suas: - Merecias que te fosse às ventas seu filho da puta. Já não há respeito nem num acto destes?
         O Redolho bem como o Rebola Caixotes acharam por bem não retorquir tanto mais, que viram como ao Palpito lhe fremiam as aletas do apêndice nasal e quando isto acontecia era sinal que estava prestes a soltar o seu génio violento.
         De ambos os lados da estrada, estavam muitos populares que não se tinham incorporado no préstito que lá caminhava às vezes por caminhos acidentados. Tanto assim, que o corpo da menina Efigénia com os solavancos até parecia ter movimento próprio.
         Atento àquele quadro, estava o Chico Caixa vestido como sempre à cáboi: chapéu de abas reviradas, calças afuniladas e botas mexicanas de tacão alto favorecendo-o em altura. Era também anti-simpatia, anti-clerical, anti-religioso, enfim, era um anti a tempo inteiro. Deu-se até o caso que num Domingo de Desobriga, quando alguns bons católicos que estavam, depois de terem cumprido o seu dever, a beberricar na taberna do Ti Manel da Ribeira estar ele também presente. Não é que o safado se vira para o Amândio Bexiga, no momento preciso em que ele emborcou de um trago um cálice de bagaço que sem rebuço, atira-lhe esta anormalidade: - Tão, já estás a afogá-LO?
         Os presentes, somente sorriram, não, que eles eram tementes e acharam melhor terem em conta o velho axioma: “Muitas graças a Deus e poucas graças com Deus”.
         Pois o nosso figurante, no alto dos seus tacões, movimentando um palito de fósforo que prendera na boca e com os olhos fisgados no caixão, gracejou: - Fico sem saber se a velha se abana por rir ou se ri por ser abanada. Os que estavam à sua beira e que eram da sua laia, deliraram, ficando toda aquela ala à beira caminho parada, bem-disposta e chalaceira.
         Já a carreta tinha ultrapassado o largo portão de ferro do jardim das cruzes e ainda se ouvia o gargalhar daquelas almas danadas sem temor a nada e a ninguém.
         - São uns ímpios, uns excomungados refilava a Ti Panchorra, virando a cabeça para donde vinha o som daquele despropósito.
         Quem esperava encostado à sachola, era o Ti Manel Pilatos, elevado à categoria de coveiro interino, já que o efectivo, o Ti Chanfana andava às voltas com um cobrão que o trazia derreado.
         Quando abeiraram o caixão, o Ti Pilatos descobriu-se metendo a boina no bolso traseiro das calças coçadas. O padre Manuel, fez a última oração e, de seguida, então sim, a menina Efigénia recebeu a última água.
         Fechado o sobretudo de pinho, foi este acomodado no fundo da cova com a ajuda de alguns populares.
         O Ti Pilatos debitou o seguinte comentário ao mesmo tempo que arremessava os olhos piscos e vermelhuscos que enxugava constantemente com o lenço tabaqueiro amarfanhado e enxovalhado, para o fundo da cova: - Para quem não é da arte, até ficou um trabalho asseado. O talhe como convém, foi mesmo à justinha. Desejo que a menina F’génia, conserve no Céu o mesmo sorriso com que se foi da terra. Isto, dito ao jeito do Ti Pilatos, fez com que os mais próximos, o padre Manuel incluído, retivessem a custo o sorriso.
         Só quando se ouviu o som cavo da terra a bater no tampo da urna, é que o povo debandou.
         Já o coveiro interino dava os últimos aconchegos à terra, quando o sino se calou.
         - C’um raio, até me pareceu que a porra do sino em vez de dobrar, tocava à Aleluia. Hum! Se calhar fui eu que não me atentei bem.
         Ia já de abalada, levando nos lábios um Pai Nosso, ao ombro a sachola e, com o lenço tabaqueiro limpando os olhos, ainda se voltou, a fim de ver como tinha ficado catita a última morada da menina Efigénia.

Conde da Gardunha