REBIMBA O MALHO

REBIMBA O MALHO

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

EFEMÉRIDE

EFEMÉRIDE

Manuel Maria da Silva, poeta, escritor e jornalista nasceu na Murtosa no dia 22 de Fevereiro de 1911 há portanto 103 anos.
Trabalhou nos escritórios das Minas da Panasqueira de 1947 a Julho de 1962. Morou na Panasqueira e posteriormente na Barroca Grande granjeando simpatia por parte das pessoas pois era uma pessoa gentil e com talento reconhecido.
Sob o pseudónimo de Lúcio do Vouga publicou alguns livros quer em prosa quer em poesia. Num jornal regional publicou o seguinte soneto onde ele mostra a sua modéstia:

ACANHAMENTO (AUTO-FOTO...)

Tive uma vida literária breve
Seis livros publicados, pouco mais...
Uma vida que, em fortes vendavais,
Me coroou de mágoas e de neve...

Em tudo quanto fiz fui fraco e leve,
Sempre andei por espaços siderais...
Em folhetos, revistas e jornais
Se perdeu o que a minha musa teve.

Raro vi para mim a mão estendida
No modo franco e doce de uma ajuda,
Que muito representa numa vida...

À espera de um alguém ninguém se iluda.
Pois quando julga ser-lhe a voz ouvida
A boca não diz nada - fica muda.

Conheci muito bem este senhor e, até certa vez, muito acanhado, mostrei-lhe um trabalho meu, uma poesia. Pegou no papel, reparei que conferia a métrica e a rima e, com um lápis, fez uma emenda. Aguardei com ansiedade que me devolvesse a folha para ver o que tinha escrito. Tinha trocado a palavra "toca" por "tange" - o sino-. Colocou uma mão em cima do meu ombro e disse: - não há mais emendas a fazer, continue e escreva sempre até apanhar o ritmo. Fiquei radiante na altura mas, não segui o seu conselho.
Lúcio do Vouga enquanto morou na Panasqueira contemplava a Serra da Estrela e percorreu-a  de lés a lés. eis um soneto datado de Agosto de 1949 onde canta as belezas da nossa Serra Maior.

NAVE DE SANTO ANTÓNIO

"Nave de Santo António!" Os "Cântaros" na serra!
Deslumbrante Painel que à minha Frente avisto.
Grandiosidade! Cor! Eu olho e julgo que isto
É bem o paraíso da fulgurar na Terra!

Quietude, solidão, um véu que se descerra
E tem na mutação da cena o imprevisto!
E deslumbrado, paro! E fascinado assisto
Ao nimbo redentor que a Paz de si descerra.

A brisa delicada afaga o caminhante.
E a fonte que eu escuto, em límpido cantar,
É hino que se eleva aos astros, delirante!

"Nave de Santo António"! És o formoso altar
Da serra onde contemplo, agora, triunfante,
O quadro que me faz adormecer, sonhar...

Lúcio do Vouga tem mais sonetos sobre esta Serra que o encantava e inspirava. Porém, para encerrar esta evocação transcrevo um soneto quiçá o último que escreveu.

QUE SOU?

Cheguei a velho, percorri a vida
Cada vez a subir e a cansar mais.
Entre beijos e gritos soltei ais
E tudo foi em vão nessa corrida!

Daquilo que alcancei sinto banida
A sorte a provocar-me vendavais.
E se tentei reagir tive as brutais
Decepções que se encontram na descida.

Quanta vez me interrogo e me desfaço
Nas respostas que dou ao que sou eu
No longo pensamento em que me traço!

- Sou Luz de alguma estrela que morreu
E se encontra perdida pelo espaço
Á procura da vida que perdeu!

Lúcio do Vouga faleceu em Valongo-Mafra em 22 de Novembro de 1989.
Das pessoas que hoje vivem na Panasqueira ou na Barroca Grande, possivelmente ninguém se lembrará deste homem da cultura ou sequer ouviu falar dele o que é natural pois muitos anos já passaram.
Lembrei-me de fazer este humilde tributo em memória de alguém que de certa forma engrandeceu ainda mais as Minas e com elas os mineiros.



Conde da Gardunha

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

DEPRESSO


DEPRESSO
São quase 17 horas. Olho através da vidraça e tudo é triste. O céu, está carregado cor de chumbo. Não descortino a serra, por via do nevoeiro que escorrendo-a vai tomando conta do povoado. A chuva miudinha não pára. O frio entranha-se nos corpos daqueles que por mister são obrigados a andar fora de casa. Os gigantes plátanos que distam de mim poucos metros em linha recta, despiram-se, desapareceu a luxúria verde das suas folhas que jazem agora esquecidas no chão. Na sala, onde escrevo, está na meia penumbra tendo como única luz a do candeeiro da secretária. O relógio como plangendo bate agora a meia hora. São 17 horas e trinta minutos.

              A Natureza repousa na sua morte que ressuscitará daqui a uns meses. Sinto-me como ela, faço parte dela.

              Neste lugar, onde me encontro, o silêncio nesta altura é quase sepulcral. Ouvem-se somente lá longe, o ladrar descontente dos cães que por missão guardam as quintas. É o nada no meio do nada.

              Desde algum tempo que vejo com angústia o aproximar da noite… E ela chega tão cedo!

O meu refúgio é a leitura ou olhando enfastiado o caracolear do fumo do meu cigarro e, quando me apetece, escrever, escrever banalidades mas que, valha-me ao menos isso, há sempre alguém a dizer que gosta. Ainda bem!

A noite é já cerrada e o que aproveitei deste dia? Talvez menos que um cenobita que este, dentro do seu convento, tem obrigações a cumprir.

Quando de manhã desço à freguesia para tomar café (podia tomá-lo em casa), por companhia tenho a dona do café ou algum cliente esporádico que na maior parte das vezes nem conheço. Sinto a falta dos anciãos com quem no Verão convivo e contam-me as suas histórias que são na maior parte, histórias picarescas. Até estes amigos, devido à idade provecta evitam sair de casa com receio de os invadir alguma maleita.

O meu cão, deitado aos meus pés, olha-me com meiguice parecendo até adivinhar o meu estado de espírito, ou então interrogar-me para quando o bom tempo, para poder correr desenfreado, pela terra fora como é seu hábito. Esse tempo virá, mas primeiro teremos que aguardar que a Natureza saia deste coma induzido.



CONDE DA GARDUNHA

domingo, 5 de janeiro de 2014

O PRESÉPIO


O PRESÉPIO
O presépio é um vocábulo de origem hebraica e etimologicamente significa local onde se recolhem os animais ou seja, estábulo.
O presépio tem a sua história, e sabe-se a data precisa em que pela primeira vez foi encenado. O seu autor foi São Francisco de Assis com o consentimento do papa Honório III. Festejava-se o nascimento do Deus Menino na noite de Natal do ano 1223.

Aconteceu em Itália no bosque de Gréccio propriedade de João de Velita, amigo e fiel seguidor de São Francisco. Tudo foi preparado coo o Santo imaginara. Armou-se um altar para a celebração da missa e, numa gruta, colocaram uma manjedoura atapetada com palha. A ladeá-la, um jumento e uma vaca. Nada mais! O objectivo era que cada um dos presentes imaginasse o resto do quadro.

Foram convidadas as pessoas dos arredores,
bem como os frades dos vários conventos afim de assistirem à Eucaristia da meia-noite.
A noite estava escura. As gentes apareciam de todos os lados acudindo ao   bosque de Gréccio empunhando archotes e luminárias. Foi de facto uma noite diferente. Houve missa solene oficiada pelo Cardeal Ugolino. São Francisco leu o Evangelho e pregou ao povo sobre o nascimento de Jesus.

João de Velita, senhor do bosque, afirma ter visto um menino acariciando e afagando o Santo.
Conta-se que depois da cerimónia, todos os presentes levaram para suas casas pedaços da palha que estivera na manjedoura que segundo alguns tinha poderes milagrosos.
Também, segundo a tradição, as tábuas que serviram de manjedoura, conservam-se num relicário de prata exposta à veneração dos fiéis na Basílica de Santa Maria Maior em Roma.

A título de informação direi que na gruta de Belém onde jesus nasceu, foi construída uma magnifica igreja mandada construir por Santa Helena no ano de 326. No chão a assinalar o presépio está uma estrela de prata com a seguinte inscrição

 AQUI NASCEU JESUS CRISTO DA
VIRGEM MARIA



CONDE DA GARDUNHA

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ANO VELHO VS. ANO NOVO

Ano Velho vs. Ano Novo
 O dia está feio: frio, nevoeiro e com chuviscos. O Dezembro reboca o ano de 2013, expirando ambos com má catadura e a contra gosto.

 Neste momento a casa está vazia. Almoço sozinho por opção. Sentado ao meu lado, o Ricky meu companheiro, espera uma guloseima extra ração que contra a minha vontade não lhe dou, por imposição do veterinário.

 No café onde vou todas as manhãs, tive uma companhia cuja amizade é recente, mas tenho-a como boa. Conversámos sobre diversos temas desde livros até à música. É uma pessoa interessada e que me vai explorando do que pouco que sei, mas que transmito com todo o prazer.

 Brindámos ao novo ano com um Porto. Brindei por delicadeza já que não sou de dar vivas ao que seja, por morte do que for.

Parece que todos estão desejosos que o ano velho se vá; faz-me lembrar dos que também assim pensam em relação aos seus parentes idosos.

 Neste ano, todos sabemos como o passámos, para o que vem é uma incógnita, não para os astrólogos e afins que esses têm o dom divinatório. Quantos dos que querem ver-se livre deste que agoniza, chegarão a dar vivas ao 2015? Eu, como um ser diferente dos demais, não me regozijo e por isso não festejo. Morrer o ano é também morrermos um pouco.

Nesta noite, a última do ano, a alegria vai extravasar – alguma, quiçá, fingida, mas importa enterrar o defunto e festejar o nado. As bebidas entornam-se goelas abaixo sem conta nem medida, empanturram-se até aos gorgomilos, os gritos de boas vindas estridem, todos os sítios estão esgotados e, alguns a preços exorbitantes e eu ser canhestro, interrogo-me por onde anda a tão propalada crise que de tanto se falar dela nos põe depressivos.

A grande maioria não estará de acordo mas, quando comecei esta crónica, não foi com o intuito de granjear aplausos e vivórios, pois sei que não vai ao encontro das opiniões de quem, por hábito, nesta altura, faz os seus festejos, foi somente, para expressar a minha opinião que não terá eco e que vale por si somente.




Conde da Gardunha

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

AS VICISSITUDES DO CATOLICISMO


AS VICISSITUDES DO CATOLICISMO

Como católico, não posso nem devo ficar indiferente aos constantes escândalos provocados pelos chamados ministros de Deus. Com demasiada frequência, a Comunicação Social dá-nos conta dos delitos que se vão cometendo e todos de cariz sexual. São crimes que se adicionam a outros que a igreja vem acumulando através dos séculos. Lembremo-nos das Cruzadas e da Inquisição que até foi canonizada e por isso lhe chamaram santa ―a Santa Inquisição.

O catolicismo está repleto de crimes e é com mágoa que o digo. Quantas vidas ceifadas, quantos martírios infligidos a povos com outras crenças? Os responsáveis pela evangelização não se limitavam a divulgar a palavra de Cristo que devia ser com bonomia, com paciência e convicção conforme os exemplos que o Redentor nos deixou, sem recorrer a métodos completamente antíteses aos que o Salvador ensinou.

Retrocedendo aos séculos VIII e IX era prática comum as forças castrenses entrarem nas povoações espalhando o terror matando e mutilando os não convertidos a Roma, abrindo assim, caminho aos que vinham na retaguarda ―o clero ― que, perante o resto do povo, aterrado, os obrigava pelo medo a aceitar a nova doutrina.

Seria esta a maneira mais correcta de pregar a Palavra? Seria este o procedimento mais condicente, para uma conversão em plena razão? Não deviam deixar que cada qual escolhesse a religião em que mais acreditasse e onde se sentisse melhor?

Depois, já quase na contemporaneidade, apareceu a famigerada, a vergonhosa, a nódoa negra do catolicismo: a verduga "Santa Inquisição". Se houvesse o Inferno tão propalado pela Igreja desde há séculos com que aterrorizam os fiéis com a ameaça de as almas serem consumidas pelo fogo― sem no entanto se consumirem―e que são acicatadas por anjos demoníacos. Se assim fosse, eles os do “santo” Oficio, deviam por lá cirandar principalmente a alma do sicário padre Torquemada, o mais acérrimo defensor desta barbárie. Outros igualmente, os que tinham responsabilidades e que podiam refrear essa crueldade. Toda esta corja por lá deve andar a carpir todos os males que infligiram à humanidade.

A Inquisição foi implantada definitivamente em Portugal no ano de 1536 no pontificado de Paulo III que detinha amplos poderes e no ano 1540 houve o primeiro auto-de-fé. Contam-se por centenas de milhares de pessoas vítimas das torturas e mortas nos países onde as fogueiras se erguiam.

Mas, o assunto que me levou hoje a escrever esta crónica, não é propriamente fazer a história da Inquisição, mas sobre o celibato. Todos sabemos que a pedofilia grassa na igreja católica. Não confundamos com homosexualidade. Não venham dizer que é a mesma coisa, são procedimentos distintos. Fiquei com a boca em "Ó" de pasmo quando ouvi um alto dignitário da igreja católica misturar e meter tudo no mesmo saco. Quando nos sentimos comprometidos, inventamos as coisas mais bizarras.

A pedofilia, segundo me parece e, é somente uma opinião, podia, porventura, não ser erradicada, mas com certeza, seria em muito atenuada, com o fim do celibato do clero. O celibato andou a ser discutido em vários Concílios. Foi no entanto instituído definitivamente em 1563 no Concílio de Trento convocado pelo papa Paulo III Porém, se a Igreja pretende seguir o exemplo dos apóstolos, cabe aqui perguntar: - Não seriam os apóstolos casados? Não teriam eles uma família? Pedro não era casado? Não foram casados os papas Adriano II e Honório IV? Então por que não outro Cocílio que revogue o disposto no anterior anulando o celibato? Aquando do Concílio Vaticano II viu-se a debandada de padres renunciando os seus votos e casarem.

Quer a Igreja conservar as paróquias em vez de, como já li, eliminar umas quantas? A solução para colmatar o défice de prelados é instituir o casamento; tão simples como isto.

É preferível que leigos de moral duvidosa em muitos casos e sem preparação substituam os verdadeiros ministros de Deus? É por tudo isto que não é para admirar que as cerimónias religiosas tenham cada vez menos participantes.

Gostaria que um dia fosse escolhido um Papa, não idoso, e que tivesse a coragem de abrir as janelas e portas do Vaticano, para que os ares bafientos dessem lugar a outros mais puros c/ cheiros de modernidade e que todos cantassem aleluias porque só assim a igreja terá a força de que necessita e evitar que vá mirrando evitando que milhares de crentes desertem, para outras religiões.
E por todas as situações condenáveis ergo os braços e REBIMBA O MALHO



Conde da Gardunha

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A MISSA DO GALO

A MISSA DO GALO

A Proveniência do nome Missa do Galo, não se sabe ao certo de onde vem. Há opiniões que divergem embora convergindo num ponto: O galináceo está sempre presente em todas as teses.
Existe uma lenda que nos conta que numa véspera de Natal, o galo cantou à meia-noite anunciando o nascimento do Menino Jesus. Outra fonte diz-nos que a missa terminava bastante tarde e os fieis quando regressavam a casa, os galos já cantavam.
Outros dizem que o nome teve origem por Jesus ser considerado o sol nascente e que nos visitou para dar luz à escuridão. Por isso é que em muitas igrejas têm ainda um galo nos campanários representado a luz Divina. O galo caracteriza o nascer do sol e, o seu canto simboliza o amanhecer ou a luz. Sabe-se todavia, que esta missa celebrou-se pela primeira vez no ano 300.

Gostei sempre de assistir a esta missa talvez pela hora que é celebrada ou talvez pela magia daquela noite maior.
A Missa do Galo era, naquele tempo, fértil em peripécias, tornava-se mesmo difícil conter o riso por serem tão caricatas. Não se tratava de cenas maldosas nem carecidas de respeito. Se aconteciam, a culpa era da alegria transbordando dos corações estimulada porventura pela bebida ingerida à volta da fogueira.
Do que estava sempre à espera, era dos cânticos em louvor ao Menino. Enquanto as fieis devotas chegavam ao fim do cântico no tempo devido, os fiéis devotos iam só pelo meio. O hino saía numa cadência lenta e arrastado embalado quiçá em hálitos etílicos. Os outros participantes esperavam pacientemente que a última voz penosamente chegasse ao fim com reprovação estampada na cara do prior.
O que de facto tinha maior relevância era que todos louvavam e festejavam o nascimento de Jesus, fosse em compasso binário ou quaternário.
Nesta missa, é hábito dar a beijar a imagem do Menino e, eu, menino de Capela-Mor, ia observando todo o cerimonial. Os fiéis subiam pela coxia central e desciam pelas laterais. Enquanto uns beijavam sem tocar na imagem, outras porém, principalmente os mais idosos que de lábios arrepanhados beijavam ali mesmo de chapa aquele corpinho róseo que era um regalo. Beijo molhado e sonoro como a querer mostrar ao Redentor o quanto gostavam Dele.
Depois do “IDE EM PAZ E QUE O SENHOR VOS ACOMPANHE” que na altura era dito em latim, os homens agrupavam-se de novo em volta do brasido até começarem a debandar para as suas casas onde para alguns, os esperava a ceia. A Ceia de Natal ou Consoada. Importava fazer jus aos pitéus tradicionais desta festa que as mulheres incansáveis tinham confeccionado.
Outros havia, os menos afortunados, que quando ultrapassavam a porta da sua casa metiam-se na cama entre lençóis húmidos e frios. Em vez da consoada uma lágrima escorria pelo rosto.


Conde da Gardunha

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O MADEIRO

O MADEIRO



O   Madeiro ou Tronco também assim chamado era trazido pelo rapazio do lugar num carro puxado por uma junta de bovídeos, ao som da
concertina que acompanhavam com cânticos e, colocado no adro da igreja.
Contudo, com a evolução dos tempos os simpáticos e pachorrentos animais deram lugar ao trator com atrelado que embora chegue mais rápido, ficou com menos encanto.
A tradição manda que o Madeiro seja roubado e, se o dono tiver alguma desconfiança, facilite a missão dos rapazes fingindo nada saber, pois essa madeira servirá para aquecer aquela noite de Natal.
Por tradição, será uma noite fria de bater o dente e, o ambiente será perfeito se farrapos de neve caírem do espaço. Deus dê muita saúde e vida para quem já teve esse privilégio.
Muito antes da meia-noite, já as pessoas começam a abandonar os seus lares. Vêm encapotadas com as golas bem puxadas para cima e, as boinas ou chapéus, afundados até às orelhas. As mãos enregeladas e, se não estão no fundo dos bolsos, friccionam-se uma contra a outra ou bafejam-se. Os narizes por via de regra estão vermelhos fustigados pelo ar gélido vindo da serra coberta por manto branco. As fungadelas sucedem-se recolhendo o pingo que teima em aparecer até que por fim acaba nas costas das mãos.
O povo conforme vai aparecendo vai ficando em redor do madeiro já esbraseado. O adro está enrubescido pelas línguas de fogo que numa dança voluptuosa, vão lambendo como a acariciar e, aos poucos, vão tomando posse daqueles troncos.
Enquanto os olhares se prendem naquele bailar das chamas acompanhadas de vez em quando de miríades de faúlhas, esticam-se os braços e aquecem-se as mãos ao mesmo tempo que batem os pés no lajedo ou no chão térreo.
A garrafa da aguardente que alguém levou, anda de mão em mão, melhor dito, de boca em boca e, no final de cada emborcação, soltam um aaaahhhhh! que ela é da rija.
Os corpos vão aquecendo não só por fora mas também por dentro. As conversas animam-se, a risada é espontânea e a alegria transparece e não tarda que uma voz se solte bem alto para cantar loas ao Deus Menino que imediatamente é seguido pelos demais.

Ó meu Menino Jesus,
Ó meu Menino tão belo,
Logo vieste nascer,
Na noite do caramelo.

Alegrem-se os céus e a terra,
Cantemos com alegria,
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria.

Entretanto a meia-noite chegou e o sino da igreja faz o convite para assistirem à Santa Missa, a Missa do Galo que é participada pela maioria dos presentes.




CONDE DA GARDUNHA

O TUDO E O POUCO DO NATAL

O TUDO E O POUCO DO NATAL 


POESIA DE A. MAGALHÃES

Aqui, olhando bem, o pouco é tudo
E o tudo que atrai é sempre pouco:
Mistério que me deixa sempre mudo,
Mistério que me deixa quase louco.

 Se me chega o pouco tenho tudo;
Se me sobeja tudo, o tudo é pouco.
Mas a gritar por tudo ando rouco
Sem tino, cego, um pouco tartamudo.

 O tudo que procuro está no pouco,
Já que no pouco pode estar o tudo.
Às vezes, o maior é o miúdo
E o mais inchado é apenas ôco.

 Sempre se pode ser feliz com pouco,
Já que aqui, o tudo não é tudo.
Essa a razão por que anda tudo louco
Atrás de tudo que é só reboco.

Ó frustrados de todos e de tudo,
Ensinai-me a sair deste cabouco,
Pois se souber no pouco pôr o tudo,
Serei então feliz com o meu pouco.

Em Deus Menino ‘stão o tudo e o pouco
Mas no seu pouco é que temos tudo.
O engano virá do falso troco,
De não chegar ao tudo pelo pouco.

Este Menino é tudo no seu pouco
E só nele se pode achar o tudo.
Se assim não for, tudo o mais é louco.
Ó meu Menino, Menino tão pouco!

Tão pouco! Mas para nós sois o tudo.                           

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

AO CALOR DA LAREIRA

AO CALOR DA LAREIRA

Homem que hoje recordo com saudade era um ser simples, bom e com sua filosofia.
O Ti Manel Pilatos era querido por todos daquela localidade e nunca o vi de ânimo exaltado apesar, de por vezes, ter sido alvo de algumas tiranias feitas pelo rapazio inconsequente e brincalhão.

Era uma pessoa humilde de sorriso fácil desenhado numa cara de bonacheirão onde despontava uma barba já branca que só era rapada no fim-de-semana. Naquele tempo, como um escudo e cinquenta centavos (1$50), pesava no orçamento daqueles que tinham fracos recursos e, era a maioria, só nos Sábados, é que se davam ao luxo de passarem pela cadeira do mestre Ti Zé Manteigas para a respectiva escanhoadela.O Ti Manel Pilatos segundo creio, chegou a trabalhar dentro da mina mas, só o conheci como varredor das ruas do lugar. Ignoro também a categoria que tinha, sequer se chegou a ser encarregado, como o era o Ti Prata.
Porém, o motivo principal desta crónica, foi mais para contar um episódio protagonizado por este homem e que presenciei.
Numa longínqua manhã de Primavera, estava o meu irmão alcandorado num banco, à janela da porta da cozinha a observar a lida dos varredores que com as suas vassouras feitas de galhos secos e, com o cesto asado de chapa, iam recolhendo o lixo que o vazavam para o carro de mão. Nisto, aparece o Ti Pilatos. Trazia como sempre a sua boina preta e, como hábito, já sem o remate final situado no cocuruto; estava  passajado sabe-se lá por quem, já que nunca lhe conhecera mulher de contracto.
Parou em frente daquela criança e disse com ar risonho: - mas que menino tão bonito!  Não se conteve: chegando-se mais, pespegou-lhe um beijo bem repenicado em cada face.
Fiquei contente com aquele gesto espontâneo e, principalmente, por se tratar do meu irmão. A minha mãe sorrindo disse-me: - sabes, quem meus filhos beija, minha boca adoça.



BEM AVENTURADOS OS PUROS DE CORAÇÃO PORQUE VERÃO A DEUS

CONDE DA GARDUNHA

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

TYLDE E THOR


TYLDE E THOR
Naquele dia do mês oitavo, o sol na sua esplendidez disparava os seus raios, para mortificação de todo o ser vivente.
Pelo meio da tarde, Tylde e os seus mais próximos, chegaram ao monte da Uña vindos não se sabe de onde.
Vinha afogueada e sedenta e, sem demora, resolveu ir banhar-se num lago delimitado pelas muralhas do Templo. Este erguia-se e aninhava-se harmoniosamente, junto ao mais arborizado monte da Uña. O templo era guardado ciosamente pelos sacerdotes Uytas que tinham também por missão além de tratar das terras envolventes, prestar bons serviços à comunidade. Detentores do saber, instruíam aqueles que os procuravam não olhando à condição social. Todos eram tratados de igual forma sendo contudo, premiados os mais aplicados no estudo.
Nesta estória entra um outro personagem de seu nome Thor que nunca ascendera a um escalão superior na hierarquia pela falta de sapiência. Thor era forte, bem-parecido e galante o que lhe valia a admiração e os favores das mulheres.
Sigamos Thor que, atento, não lhe passou despercebida a intenção de Tylde. Cauteloso como convinha, afastou-se deixando as pessoas entretidas com conversas e afazeres. Com vigorosas pernadas, facilmente venceu uma escadaria granítica seguida de uma não longa ladeira. Acobertou-se com as paredes e a densa vegetação que ladeavam o lago. Por entre esta, abriu com alguma dificuldade uma vigia que lhe ofereceu uma panorâmica do lençol de água.
Como adivinhava, Tylde, a curta distância, banhava-se voluptuosamente; maravilha das maravilhas. O coração de Thor disparou como corcel acicatado. Elevou os olhos aos deuses e agradeceu aquela ventura. Ficou estático; o tempo para ele parou. Não desfitava aquelas formas que ora emergiam ora desapareciam de seguida, só permitindo entrever para seu suplício. Mas, quem porfia… mata caça.
Apaziguado o calor que a atormentava, Tylde ergueu-se expondo ao olhar libidinoso de Thor o seu corpo na máxima beleza e pujança.
Era bela! O rosto era perfeito e sereno, a boca sensual e bem desenhada e, sobranceiro, um olhar transmissor de paz, de serenidade, embora quem nele bem atentasse, descobriria lampejos de alguma malícia, de alguma concupiscência. Era meã de estatura, pernas e ancas torneadas, barriga lisa, sem sinais de ter sido alguma vez fecundada, cintura modelada, delicada e flexível como um junco, num orgulho esbelto qual rosa mística de formosura onde um sorriso esvoaçava candidamente num reflexo de oculta ternura. Os seios tonificados e aureolados a sépia, com os bicos enristados. Parecia até que descia do acrotério, da áurea gloriosa dos templos dos pedestais das estátuas a fim de consagrar a vida e o amor.
Tylde, para alcançar as suas vestes, aproximou-se num andar coleante do sítio onde Thor estava de tocaia. No momento próprio e, com ânsias de desejo, estendeu o braço possante, puxando a si, aquele corpo belo e desnudo de fazer inveja a uma qualquer Afrodite.
A surpresa pareceu não ter sido muito vincada. Tylde resiste, mas não com muita convicção; parecia que já esperava os movimentos escusos daquele homem atraente e possante.
Fitou-o com seus olhos rasgados e sedutores, seus lábios túmidos e sensuais de bacante entreabriram-se num meio sorriso e anichou-se no peito daquele homem sedutor e possante.
Apesar da sua excitação, Thor procedeu como se nas suas mãos tivesse a flor mais rara, a flor mais delicada.
Tomo-a nos braços e levou-a para um sítio recôndito. Numa cama feita de folhame, depositou gentilmente a sua preciosa carga. Colheu flores campestres e derramou as pétalas sobre aquele corpo de epiderme morena e voluptuosa. Do ar, diluiu-se radiosa poalha de oiro que cúmplice o deus maior do amor, espargia abundantemente.
Tylde cônscia da sua nudez de açucena rutilante, ruboresceu, fremiu e sorriu com uns lábios túmidos e sensuais de bacante; foi o suficiente para chamejar o que estava latente: Thor cobriu com o seu o corpo daquela que no momento era o que mais desejava. Ela recebeu-o enlaçando-o e as bocas uniram-se. O que demorou algum tempo na conquista consumou-se em poucos minutos. Ficaram os corpos e os sentidos pazeados.
Não houve promessas nem juras, ambos tinham a consciência que aquela união se realizou por impulso do desejo e que entre eles, o amor seria inconsequente embora na memória de cada um, estes momentos vividos com intensidade, para sempre ficaram gravados. 
Thilde, mergulhou no sono, bela na sua nudez já saciada, rosto vergado, pálpebras cerradas, tronco que se enroscava, mostrava suas formas pujantes, de cujos seios robustos dir-se-ia jorrar vias lácteas resplandecentes.
Os duendes da floresta tangiam múltiplas e pequenas campainhas. Os lábios de ambos descerraram-se lentamente desenhando um sorriso de bem-aventurados.
                                                                                                           
CONDE DA GARDUNHA